Um heroísmo forçado

Ontem fui ver a primeira peça da mostra Palco Giratório 2013, no Sesc Dragão do Mar. Lotação máxima, para conferir Luis Antonio Gabriela, da Cia. Munguzá de Teatro. Óbvio que o espetáculo é maravilhoso no aspecto dos recursos e das surpresas cênicas, além da incrível habilidade dos atores, que esbanjam talento. Mas a história peca por uma interpretação heroicizada e, em alguns trechos, até sentimentaloide, do personagem Luis Antonio. Quando sabemos que o cunho biográfico é o verdadeiro responsável pela existência deste espetáculo, tudo fica ainda mais grave. Porque se Luis Antonio, irmão do diretor, Nelson Baskerville, realmente foi esta figura promíscua e até criminosa (no estupro e no assédio que voltava aos irmãos e às crianças menores), não há razão para uma tentativa de “redenção” que a peça desesperadamente busca, com a declaração de Nelson de que sua motivação foi “um pedido de desculpas” para o irmão travesti, incompreendido. Que este personagem tenha tido os seus desvios trágicos, os seus sofrimentos, ok – há um toque comovente eficaz. Mas me incomoda esta associação da homossexualidade com o submundo, necessariamente. E, sobretudo, me parece terrível justificar o comportamento de alguém – qualquer comportamento – com base na sexualidade. Há aspectos que são relativos ao caráter, e não ao sexo. Luis Antonio, ao que me parece, não foi um indivíduo de bom caráter, não se preocupou em “amar os outros”, como insistentemente coloca o monólogo final. Ele foi (apenas?) um atormentado, que prejudicou muitas pessoas, em sua trajetória – incluindo o irmão Nelson. A sua rendenção aconteceu por inspirar um espetáculo teatral de ótima qualidade – mas isso não dependeu dele; foi um simples acaso que alguém de sua família pudesse transformar um trauma em arte.  O heroísmo de fato se concentra nisso, nessa distorção que Nelson Baskerville faz da realidade. Mas não nos enganemos: o personagem Luis Antonio pode, no faz-de-conta, ganhar contornos sublimes – mas na vida real, longe de toda poesia, ele foi somente uma alma perdida, que provavelmente não merecia tanta generosidade artística.

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