Proust para rir

Estou cada vez mais convencida de que os grandes livros são mesmo inclassificáveis. Agora estou lendo Em busca do tempo perdido (e o longo atraso se deve a vários motivos: o tradicional receio provocado pela crítica literária, que às vezes nos faz achar que não somos capazes – ou merecedores – de tão magnífica obra, o lugar-comum da falta de tempo, contra o qual sempre nos insurgimos, em nome do prazer, a ânsia de adiar, numa felicidade clandestina, esse momento inaugural em que finalmente encontramos um gênio etc etc). E o que essa leitura me provoca é uma delícia comparável à que experimentei lendo Ulisses, A montanha mágica ou Auto-de-fé: estes são livros grandiosos não somente pelo volume – embora pela extensão é que eles consigam desenvolver uma diversidade (linguística, temática, pictórica) tão rica, que pode agradar a todos os gostos.

No caminho de Swann, por exemplo, é tudo o que a sua introdução preveniu: um livro de teor memorialístico, em que as ações transcorrem lentas, com profundas marcas psicológicas e reflexivas. O poder de observação de Proust, no entanto, faz saltar momentos de ironia e humor que eu jamais creditaria a um autor de olhos tão melancólicos (e não só os olhos, conforme dizem). Assim é que encontro, em trechos como os que transcrevo abaixo, momentos de diversão garantida. Mas o livro não é inteiramente assim, claro. Ele nos faz saborear várias outras emoções – raiva da tia Léonie, agonia por um ritmo de vida tão provinciano, uma certa inveja e respeito por Charles Swann, alguma inquietação pelo jovem Marcel, que parece andar às cegas, em função de seus hábitos maníacos… Tal variedade – e mais o universo de discussões sobre uma época e uma cultura tão diferentes da nossa – asseguram que esta experiência literária será de fato inesquecível!

Trechos:

“Ouvira falar de Bergotte, pela primeira vez, por um de meus colegas mais velhos que eu e pelo qual nutria grande admiração: Bloch. Ao me ouvir falar de minha admiração pela Nuit d’Octobre, dera uma risada estridente como um clarim e dissera: ‘Desconfie de sua predileção bastante baixa pelo senhor de Musset. É um gagá dos piores e uma besta sinistra. Devo confessar, aliás, que ele e até o chamado Racine fizeram, cada um, um único verso bem ritmado e que têm para mim, o que a meu ver é o mérito supremo, o valor de não significarem coisa alguma. (…)”

“Porém Bloch havia desgostado a minha família por outras razões. Principiara por aborrecer meu pai que, vendo-o molhado, lhe dissera com simpatia:

– Mas, senhor Bloch, que tempo está fazendo, será que choveu? Não estou entendendo nada, pois o barômetro indicava tempo bom.

E obtivera apenas esta resposta:

– Senhor, não posso lhe dizer absolutamente se choveu. Vivo tão decididamente fora das contingências físicas que meus sentidos não se preocupam em notificá-las.

– Mas meu pobre filho, é um imbecil esse teu amigo – dissera meu pai quando Bloch se foi. – Como! Não pode sequer me dizer que tempo está fazendo! Mas se não há nada mais interessante! É um idiota.”

(PROUST, M. Em busca do tempo perdido – v.I. trad. Fernando Py. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, pp.84, 86.)

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2 pensamentos sobre “Proust para rir

  1. adorei a seleta irônica. nunca li o proust porque logo quando ele começa o caminho de swann falando de sono eu sempre durmo!

  2. Muito bom, um dia lerei. Neste momento, estou ocupado com o Dr. Jivago.
    Cara Tércia, você já escreveu um texto sobre a questão do motivo de se escrever? ou seja, por que você escrever, o que é a escrita para você?
    Cordialmente,
    Carlos Eduardo

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