Desculpas esfarrapadas

Experimente, por exemplo, dizer para uma amiga que não irá fazer um curso de salsa e merengue, apesar de toda a insistência dela – e apresente as razões verdadeiras: você não gosta dos ritmos, já passou da idade de se submeter ao ridículo, tem preguiça etc. A amiga ficará inconformada, achando que os motivos são mesquinhos e você simplesmente não quer acompanhá-la. Se, ao contrário, você inventar que salsa e merengue são danças que o ortopedista lhe proibiu, terá suas desculpas aceitas com facilidade.

Recentemente, li uma pesquisa comprovando o índice de sucesso de justificativas incomuns, em relacionamentos de vários modelos: sentimentais, familiares, profissionais… Parece que quanto mais formidável a recusa, mais chances tem o seu autor de ser perdoado. A pesquisa não revela se isso acontece porque a criatividade é vista como um tipo de loucura, e as pessoas passam a ser evitadas – o que pode ser confundido com uma atitude de respeito, dependendo do caso. Mas tomemos como evidência o episódio com uma professora que foi minha colega de trabalho, anos atrás. Ela sempre justificava a necessidade de sair das reuniões dizendo que tinha programado suas lentes de contato para durarem duas horas; depois disso, elas derreteriam. Ninguém dava muita atenção àquela história, mas certo dia (durante uma palestra demorada) um líquido gelatinoso começou a escorrer pelas faces da mulher. A direção do colégio teve medo de um processo judicial, e o resultado é que a professora ficou liberada dos encontros pedagógicos, porque “corria risco de cegueira”! Óbvio que ela jamais revelou qual o truque com as lentes, e essa foi a desculpa mais perfeita e convincente que testemunhei.

Como não tenho um bom repertório de negativas nem presença de espírito, utilizo na maioria das vezes o silêncio – porque também, com ele, não me acusam de mentir. O silêncio, claro, não diz nada, mas para algumas pessoas parece indicar a verdade. E, nesta época em que as intenções valem mais que as ações, às vezes acontecem milagres! Dependendo do número de convidados e da bagunça reinante no local, as pessoas podem até nos confundir com gente parecida e acreditar sinceramente que estivemos lá…

Recordo sem culpa todas as ocasiões em que usei doenças fictícias ou situações imprevistas (acidente de trânsito, pneu furado, incêndio na vizinhança) para não comparecer a atividades compulsórias. Que atire a primeira pedra o leitor que nunca criou mentiras para se livrar certo compromisso incômodo ou obrigatório. Na falta de uma pedra, vale interromper a leitura desta página de jornal para reduzi-la a uma bola, que se arremessa com um alegre piparote.

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo)

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