Para fugir da contemporaneidade

Volto à questão da arte brasileira, agora para detalhar meu desagrado com duas obras específicas, na exposição da Unifor. Refiro-me às instalações de Tunga: com vidro, chumbo, correntes e uma esponja enegrecida – tudo num arranjo caótico, naquele aspecto de fraude que perpassa tantas iniciativas contemporâneas (parece que estamos num vale-tudo em que um simples espasmo já é considerado gesto criativo). Pois bem: após uma pesquisa, constatei que o citado artista tem reconhecimento internacional, prestígio etc, já morou em vários países e é filho do poeta Gerardo Mello Mourão. Esse último fato foi o que mais me alertou, porque Mello Mourão (apesar das escolhas políticas que mancharam bastante sua imagem) era um bom poeta e um homem inteligente, o que torna bem provável que educasse os filhos num ambiente de fruição artística. As viagens de Tunga e suas experiências internacionais também devem ter contribuído para que ele desenvolvesse sensibilidades e aprendizados estéticos. Então, eu me pergunto: por que ele desperdiça o talento que provavelmente possui em obras bizarras, que precisam de explicações de curadoria para que o público emita um “ahhh, sim”? E não me refiro apenas às peças que estão na Unifor, mas a várias outras que integram uma galeria inteira em Inhotim. O que podemos dizer, por exemplo, de uma instalação denominada “Cooking Crystals Expanded”, constituída por um “emaranhado de cristais e frascos de urina suspensos por redes e fios”? E outra, que é feita de 11 metros de chumbo que formam uma trança para ser disposta num gramado? Tudo isso me parece iniciativa pobre para chocar os desatentos, coisa de vanguarda envelhecida mesmo. Perdi a vontade de visitar Inhotim só por saber que ali se privilegiam essas tais “tendências contemporâneas” – que, no fundo, continuam reverberando as crises de non sense da arte no início do século XX. Todo esse experimentalismo estéril me cansa; são convulsões tão insistentes que me fazem querer fugir de volta aos clássicos. Esses, sim, parecem ter sempre o que ensinar, em renovações permanentes de temas e apuro técnico.

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Um pensamento sobre “Para fugir da contemporaneidade

  1. Concordo com você. Infelizmente o público vem sendo deixado de lado em algumas tendências estéticas. Precisa-se sempre de um outro para interpretar tais obras.

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