O espetáculo da morte

            De vez em quando reflito sobre esse tipo de mercado que justifica tantas iniciativas estranhas, desde funerais luxuosos (com salões da memória virtuais e videolápides) até crimes que geram lucro: autobiografias de assassinos e filmes, além do comércio – ilegal, mas corriqueiro – de objetos macabros transformados em relíquias. É fato que a morte virou tema de mistério e tabu, e talvez isso estimule o prazer ou a necessidade de esmiuçá-la. Na modernidade, perdemos o direito de morrer em casa; saímos do ambiente afetivo para um território de neutralidade hospitalar – e, como consequência, ficamos entregues a uma transição cada vez mais desconhecida e solitária. Daí porque (é uma hipótese) alguns se entregam a curiosidades mórbidas, fixações trágicas, num anseio por investigar um assunto que parece fugidio. Em determinado lugar está o sujeito que lucra com isso, vendo na morte – dos outros, claro – um filão inesgotável.

            Mas pode-se ter um aspecto positivo nessa exploração. Alguns argumentam que exposições dedicadas ao tema (como a que ocorreu em 2008, em Dresden) desmitificam a morte, tornando-a mais conhecida e, portanto, menos temível (será?). Outros continuam achando essas atitudes polêmicas, como no caso das múmias colocadas em museus. Qual o tratamento mais adequado a elas – enquanto objeto de contemplação ou interesse científico? Há quem justifique o seu exame para fins unicamente intelectuais, com as múmias acessíveis somente a egiptólogos e demais pesquisadores de apuro arqueológico. O visitante comum teria de inibir sua curiosidade, pois colocar um cadáver (por mais remoto que seja) como “peça de exibição” seria obsceno.

A sagração do corpo morto é assunto fértil em muitas sociedades, enquanto outras simplesmente ignoram o potencial de respeito que um defunto poderia inspirar. Também épocas específicas, de grandes pestes ou catástrofes, veem a urgência falar mais alto que a dignidade: criam-se valas comuns, enterros apressados, cremações coletivas como opção higiênica (pois o corpo do parente morto, por mais chorado que seja, depois de um tempo vira peste biológica para os viventes). E surgem os sepultamentos anônimos, prática hoje usual na Suíça e na Alemanha. As cinzas são dispersas em florestas, a saudade dissolvida na terra – sem necessidade de criar monumentos, jazigos em que os restos se aprisionam como em jaulas, conservando uma suposta identidade que a família deve, periodicamente, prantear.

Mas a necessidade da memória talvez seja mais forte que a ideia de liberdade. Se para mim é poético pensar em mortos dissolvidos em pó pela atmosfera, sei que muitos se revoltam com a perspectiva de perder o último resquício, a ossatura que é testemunho de uma vivência. Os esforços para deixar um rastro servem, afinal, à mais humana das características: a vaidade.

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo)

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