No caminho de Swann

Terminei há poucos dias o primeiro livro de Em busca do tempo perdido. Agora estou fazendo uma pausa para não viver sob o monopólio proustiano, embora isso não fosse desagradável em nenhuma medida: interrompo o fluxo de leitura apenas porque também gosto da sensação de encontrar alguns livros ao acaso…

Assim, nestas últimas semanas estive com O olhar da mente, do Oliver Sacks e comecei o Nosso reino, do valter hugo mãe – experiências maravilhosas! Simultaneamente, voltei ao Baudelaire (e agora, pela edição das obras completas, da Garamond, comme il faut), para não perder o espírito francês, que aliás encontro no festival de filmes da Varilux, que no momento passa por Fortal. Aguardem postagem a esse respeito; por enquanto, ofereço-lhes esta divertida e perfeita passagem de No caminho de Swann:

          “O monóculo do marquês de Forestelle era minúsculo, sem nenhum aro, e obrigava o olho a uma crispação dolorosa e incessante, incrustando-se nele como uma cartilagem supérflua, cuja presença é inexplicável, e de matéria rebuscada, dando ao rosto do marquês uma delicadeza melancólica e fazendo com que as mulheres o julgassem capaz de sofrer grandes mágoas de amor. Mas o monóculo do Sr. de Saint-Candé, cercado de um aro gigantesco, como o planeta Saturno, era o centro de gravidade de um rosto que a todo instante se regulava por ele, e cujo nariz fremente e rubro, bem como a boca beiçuda e sarcástica, tentavam, com seus trejeitos, estar à altura dos tiroteios do espírito que o disco de vidro faiscava, e via ser o preferido, em detrimento dos mais belos olhares da sociedade, das jovens senhoras esnobes e depravadas, a quem ele mergulhava em sonhos de encantos artificiais e de requintes de volúpia; e no entanto, atrás do seu, o Sr. de Palancy que, com sua grossa cabeça de carpa de olhos redondos, se deslocava lentamente no meio das festas, descerrando de momento em momento as suas mandíbulas como que para procurar orientar-se, dava impressão de transportar consigo unicamente um fragmento acidental, e talvez puramente simbólico, dos vidros de seu aquário, parte destinada a representar o todo, que lembrou a Swann, grande admirador das Virtudes e dos Vícios de Giotto em Pádua, aquele Injusto a cujo lado um ramo folhudo evoca as florestas onde se esconde o seu covil.” (pp.258-9)

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