Festival de cinema francês

          Tão curto, o Festival Varilux de cinema francês, e tão restrito a shoppings! Por que não exibir os filmes também em espaços universitários ou centros de arte? São lamentáveis essas questões ligadas a política e comércio, mas não me interessa discuti-las aqui. Vejo sua relevância, porém minha paciência para lidar com esses temas anda escassa. Quero passar ao largo dos queixumes, para festejar o que de proveitoso existe – e o cinema francês certamente nos traz esperanças de algo novo, num território tão massificado. Os filmes que consegui ver desta mostra representam isso, cada qual a seu modo.

         Camille Claudel 1915 e A datilógrafa, postos em sessões sequenciais, representam disparidades em quase tudo. O que o primeiro tem de silêncio, peso profundo e psicologismo, o segundo ostenta em dinamismo, comédia romântica e divertimento. Duas propostas diversas, mas talvez Camille satisfaça mais – desde que se supere o incômodo emocional que a película nos leva a sentir (ou desde que se perceba que este incômodo é o que na verdade se busca, reprisando a monotonia que a própria biografada sofreu – em escala muito maior – durante as suas últimas décadas de vida). Em outras palavras, o filme não é lento por descuido ou acaso; sua estética procura cenas imóveis, longas, inclusive para que nos concentremos melhor no valor visual delas – como Camille, enquanto artista plástica, faria. A datilógrafa, por sua vez, embora seja previsível e deixe o público com a satisfação de apenas ter saído com o que queria, também tem suas qualidades inovadoras, pelo tema e pelo atrativo histórico, trabalhado de forma bem humorada.

         Renoir foi outro filme concentrado em artistas (o pai, famoso pintor, e o filho, cineasta). Também aproveitou belissimamente a atmosfera de época – e, ainda aqui, inovou por deslocar o foco narrativo para ao menos três personagens, que disputam a ação principal e se influenciam mutuamente (como, de resto, parece acontecer na própria vida). Ferrugem e osso, por fim, trouxe a história mais impactante, o tipo de enredo que qualquer escritor gostaria de conduzir, pelos caminhos desdobráveis e movediços que apresenta. A todo instante, o público reformula suas expectativas, e por situações mínimas o filme poderia se transformar num melodrama, mas de cada uma dessas ameaças ele consegue se erguer muitíssimo bem, concentrando-se em outra possibilidade narrativa que então conduz os personagens para uma nova saída.

         Não assisti a todos os filmes de que gostaria, justamente pelas condições limitadas de horários e locais de exibição. Se tivesse o hábito de fazer download, já estaria baixando O homem que ri, Pedalando com Molière e Adeus, minha rainha, que também me pareceram interessantes. Resta-me esperar que eles apareçam nas locadoras de vídeo.

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