Arte e ilusão

“O que nos impressiona a retina (…) é uma confusão de pontos dançantes, que estimulam os bastões e cones sensitivos que deflagram suas mensagens ao cérebro; o que vemos é um mundo estável. São precisos um esforço de imaginação e uma aparelhagem bastante complexa para compreender o tremendo abismo que existe entre os dois. Considere-se um objeto qualquer, como um livro ou um pedaço de papel. Quando nós o examinamos com os olhos, ele projeta sobre as nossas retinas um motivo luminoso movediço e fugaz de variados comprimentos de onda e diferentes intensidades. Esse motivo dificilmente se repetirá exatamente – o ângulo da nossa visão, a luz, o tamanho das nossas pupilas, tudo isso terá mudado. (…) O termo que a psicologia cunhou para a nossa impermeabilidade às variações vertiginosas que ocorrem no mundo em torno de nós é ‘constância’. A cor, a forma e a luminosidade das coisas permanecem relativamente constantes para nós, embora possamos perceber alguma variação na mudança de distância, iluminação, ângulo de visão etc. (…) Só quando confrontados com tarefas especiais, que envolvem atenção a esses aspectos, é que tomamos consciência das incertezas. (…)

            Sem a faculdade, comum ao homem e aos animais inferiores, de reconhecer identidades através das variações de diferença, de ‘dar o desconto’ por condições que se alteraram e de preservar, como hipótese de trabalho, a moldura de um mundo estável, a arte não poderia existir. Quando abrimos nossos olhos debaixo d’água, reconhecemos objetos, formas e cores, embora através de um meio pouco familiar. Quando vemos quadros, pela primeira vez, também os vemos num meio com que estamos pouco familiarizados. Isso é mais do que mero jogo de palavras. As duas capacidades estão inter-relacionadas. Cada vez que nos vemos diante de um tipo de transposição alheio à nossa experiência, há um breve momento de choque e um período de ajustamento – mas é um ajustamento para o qual existe um mecanismo em nós.”

            (GOMBRICH, E.H. Arte e ilusão. São Paulo: Martins Fontes, 2007, pp.46-7)

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