Não irrite um croata

 Meu amigo Renato planeja sua primeira viagem à Croácia e, quando eu demonstrei interesse por saber mais sobre o país, ele me emprestou um guia de viagens, recomendando: “Leia como se fosse uma obra ficcional”. Ora, nem com esta advertência o susto foi menor! Comecei aprendendo que as praias croatas são um paraíso para nudistas desde a época em que Eduardo VIII tirou a roupa no litoral de Rab. A presença da tradição também comanda a paisagem, com suas vilas medievais e festejos. Dizem que todos os anos, no dia 1° de abril, a cidade de Ludbreg faz jorrar vinho de sua fonte principal, em vez de água. Isso pode bem ser mentira, mas é fato incontestável que existe uma imperdível rota do vinho da Eslavônia e de Medimurje!

Para se deliciar com a culinária, há muitas opções – mas ponho-me a sonhar com o cogumelo que cresce nas florestas da Ístria. Nas Ilhas Brijuni, a caça às trufas e aspargos selvagens seduz pela experiência inusitada. Quer provar uma grappa caseira, com sabor de cacto, urtiga ou sálvia? É possível fazer isso em Vis, que ainda oferece uma excursão por locais abandonados pelo Exército Nacional Iugoslavo: depósitos de foguetes, bunkers e abrigos nucleares.

A imponência histórica se vê nos castelos medievais de Zagorje e, claro, no Palácio de Diocleciano, em Split. Antes de entrar no palácio, devemos esfregar o dedão da estátua de Grgur Ninski, pois dá sorte. E, por falar em estátuas, em Hum o Corredor Glagolítico é assim chamado por ostentar onze esculturas comemorativas deste alfabeto. Estremeço só de pensar – e continuo trêmula, ao ler sobre a Península Verudela e, mais além, a Península Premantura, com seu parque e o cabo de Kamenjak. Se as palavras prometem coisas, esses nomes para mim são pura mágica!

O turista na Croácia pode se engajar em atividades voluntárias. Talvez eu escolhesse participar da proteção aos abutres-fouveiros, ajudando a alimentá-los em locais específicos (e com bastante cuidado para não ser arrebatada pelas poderosas garras desta ave, que consegue carregar alguém para um passeio aéreo – forçado – pelo Adriático!). A espécie está em extinção, e uma pessoa que se arrisque a incomodar um destes bichos paga multa de até 5 mil euros. Existe ainda a opção de trabalhar no refúgio Kuterevo, para jovens ursos órfãos – e creio que a simpatia dos mamíferos me faria optar por eles. De qualquer forma, na Croácia não devem faltar contato com animais – sobretudo com os simpáticos cães dálmatas, possivelmente originários da Dalmácia. Ver um deles sempre me dá vontade de tomar sorvete de flocos. A sorte é que o sladoled (sorvete) croata é um dos melhores do mundo…

O manual turístico termina com recomendações para evitar deslizes culturais. Na Croácia, não se costuma falar muito sobre a guerra recente. E os croatas também se consideram mais ocidentais do que os bósnios e sérvios – portanto, referências geográficas podem irritá-los. De todo modo, se para lá eu viajasse, não resistiria a pegar um ônibus de Dubrovnik para outro país, Montenegro. Seria uma escolha emotiva, óbvio, mas eu estaria a um passo dos Bálcãs e não conseguiria resistir.

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo)

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3 pensamentos sobre “Não irrite um croata

  1. É incrível como os guias se preocupam em não nos deixar irritar os nativos.
    Imagino-me prontamente, em uma cena de filme, daquelas onde os exploradores são raptados por aborígenes famintos e cozidos em um enorme caldeirão à céu aberto.
    De fato, nos falta conhecer, por nossa conta, “não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa (o homem) viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu”, e claro, se deliciar com Goulash e um Imotski de sobremesa.

  2. Gostei professora, a prosa flui com leveza e descontração, nos levando a uma boa eitura numa rede nordestina e fazendo-nos sonhar numa viagem a bela e empolgante Croácia, que não conheço, mas a imaginei nesta crônica descontraída e de certa forma bucólica.

    Paulo Roberto Melquiades Conrado.

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