Manoel de Barros – três poemas

Do Livro das Ignorãças:

 

As sujidades deram cor em mim.

Estou deitado em compostura de águas.

Na posição de múmia me acomodo.

Não uso morrimentos de teatro.

Minha luta não é por frontispícios.

O desenho do céu me indetermina.

O viço de um jacinto me engalana.

O fim do dia aumenta meu desolo.

Às vezes passo por desfolhamentos.

Vou desmorrer de pedra como um frade.

 

***

O ocaso me ampliou para formiga.

Aqui no ermo estrela bota ovo.

Melhoro com meu olho o formato de um peixe.

Uma ave me aprende para inútil.

A luz de um vagalume se reslumbra.

Quero apalpar o som das violetas.

Ajeito os ombros para entardecer.

Vou encher de intumescências meu deserto.

Sou melhor preparado para osga.

O infinito do escuro me perena.

 

***

 

A luz faz silêncio para os pássaros

– eu escuto esse escândalo!

Um perfume vermelho me pensou.

(Eu contamino a luz do anoitecer?)

Esses vazios me restritam mais.

Alguns pedaços de mim já são desterro.

…………………………………………………….

(É a sensatez que aumenta os absurdos?)

De noite bebo água de merenda.

Me mantimento de ventos.

Descomo sem opulências…

Desculpe a delicadeza.

 

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