Amor em excesso

Quando a gente pensa que já não acontecem histórias incríveis, a realidade nos desmente. Na semana anterior, fiquei sabendo a respeito de uma paixão lendária em nossa cidade: um casal tornou-se tão embevecido de amor, que os dois literalmente capturam os bons sentimentos ao seu redor.

Durante muito tempo eles passaram incólumes, sugando a energia emotiva dos bairros por onde andavam. As pessoas continuaram se relacionando sem perceber a frieza instalada, a falta de vibração, arrepios, saudade – era como se nada disso existisse. Somente aquele casal vivia as ansiedades do amor, e de tal maneira se entusiasmavam com beijos, abraços e outras tentativas de fusão física, que consumiam toda a carga afetiva antes espalhada entre vários indivíduos.

Foram descobertos por ocasião do recente dia dos namorados. Enquanto diversos pares cumpriam pretensos jantares românticos ou compareciam às reservas feitas nos motéis, um homem e uma mulher eram os únicos a realmente se amar. Não podiam deixar de chamar a atenção, ao caminharem por uma praça: testemunhas viram seus olhos faiscando de desejo, e das mãos unidas parecia transbordar um facho vibrante, agarrando aquele sentimento mútuo, porém terrivelmente egoísta. Por causa de ambos, ninguém mais se amava, não havia equilíbrio possível.

As autoridades religiosas e políticas resolveram se livrar dos acusados. Uma ordem de exílio os condenou à deriva num barco, em pleno oceano Atlântico. Antes dessa opção extrema, militares tentaram extraviá-los para outra cidade ou país, mas ninguém os aceitou. Em qualquer lugar onde estivessem, os dois absorveriam todo o amor disponível. Num barco, sozinhos, talvez eles se curassem.

Não foi, entretanto, o que aconteceu. Em alto-mar, a simples presença deles faz com que peixes e gaivotas, num raio de dez quilômetros, parem de produzir ovos: os bichos entram numa esterilidade contemplativa, ofuscados por aquele amor extremo. Pelas redes sociais da internet, agora começa uma mobilização para trazer de volta o casal. Foi sugerido um protesto em forma de greve, envolvendo filatelistas, poetas e observadores de pássaros. Eles prometem parar suas atividades, caso a dupla amorosa não seja reconhecida como símbolo essencial – e jamais maldição – da humanidade.

 

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje, no jornal O Povo)

 

 

 

 

 

 

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