Crônica de Jeri

            No meio da semana atípica – com feriado de Copa e protestos pelo país – desapareci com meu namorado por três dias. Jericoacoara é perfeita para quem busca fugir dos problemas ou da mídia. Eu bem sei o quanto preciso recordar que também sou bicho, corpo feliz a se esbaldar dentro de um lago, ofegante ao subir dunas ao sol, ou no mormaço preguiçoso de um sono calmo…

            Para chegar ao céu, entretanto, havemos de fazer sacrifícios. No caso de Jeri, o traslado inclui cinco horas de estrada, e a última delas acontece em pau de arara (com todos os solavancos inclusos), a partir de Jijoca. Na antiga vila de pescadores, hoje conhecida pelo turismo, o sossego ainda existe – pelo menos fora da alta estação.

            Recomendaram-me o passeio à Pedra Furada, mas, se não fosse pela paisagem, isso seria mesmo uma verdadeira furada. A pedra não é muito estonteante para quem já viu os monólitos de Quixadá ou as falésias de Canoa Quebrada, e as pessoas tiram um pouco da graça do local ao se fotografarem obsessivamente, em poses pseudossensuais. Mas a caminhada vale a pena pelas grandes elevações verdes que se abrem repentinas para o mar, e depois para um chão cheio de rochas e búzios. É preciso tomar cuidado na subida do retorno, que já deve ter feito centenas de paraplégicos – mas o pôr do sol compensa o risco da escalada. No resto do caminho, porém, pode-se tomar uma charrete – escolha abençoada no meu caso, pois alguns metros adiante fiquei a salvo de uma vaca parida, que estava justamente correndo atrás das pessoas que iam a pé, pela estrada.

            Não quis dispensar uma visita a Tatajuba, e soube como a vila velha foi coberta – ou subterrada, no dizer do guia local – há 50 anos, pela areia. Atravessamos de buggy uma área embaixo da qual existem pelo menos quinze casas de pescadores ancestrais. Conheci a Duna Encantada, onde os nativos percebem luzes e sons misteriosos. Um geólogo especializado na medição do movimento de dunas explicou-me o seu ofício, e um funcionário do projeto Tamar falou da época de nascimento das tartarugas, quando o caminho é bloqueado e o tempo de espera dos carros chega a duas horas e trinta minutos, até que a última tartaruguinha enfim rompa seu ovo e vá no rastro das irmãs, em direção à água.

            O ritmo lento também é a principal lição de Jericoacoara. Anda-se obrigatoriamente pela areia, pois não existe asfalto ou qualquer espécie de piso artificial nas ruas. É como se a praia invadisse restaurantes, lojas e casas (e não o contrário), forçando o transeunte a um passo vagaroso, imprescindível à contemplação. E assim deixamos rastros: cada pisada de adulto, criança ou cão contribui para o desenho movediço de sulcos e elevações – um tipo de mensagem extra? Realmente eu acredito que, com calma e consciência, cada criatura imprime as suas marcas. Efêmeras que sejam, elas estão aí, sobre o mundo.

 Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo)

Lembrança de Jeri

Lembrança de Jeri

2 pensamentos sobre “Crônica de Jeri

  1. Já peguei esse trajeto até Jeri e nunca pensei que seria tão complicado chegar ao paraíso hahaha Adorei a crônica =)

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