Sósias

        Devo ter um rosto muito comum: essa é a única justificativa para o fato de ser costumeiramente abordada por desconhecidos, homens e mulheres a me perguntar se não sou parenta de Fulana, irmã, prima ou filha de não sei quem – e quando respondo com uma negativa, ficam bastante assombrados: “Mas você é a cara dela!” Suponho que qualquer mulher branca, de cabelos pretos e lisos, com sobrancelhas meio lobatianas, deva se parecer comigo, de forma que não dou importância a esses comentários. Na maioria dos casos, inclusive, a semelhança está numa relação singularíssima que o observador faz.

            O fato é que fisionomias próximas entre pessoas que não pertencem à mesma família são sempre algo curioso. Há quem encontre conforto nos traços de reconhecimento, por mais aleatórios que sejam. Lembro que certa vez um aluno se indignou porque eu havia cortado o cabelo: “Agora a senhora não está mais parecida com a Marisa Monte!” Ora, jamais supus que houvesse qualquer identidade física entre mim e a cantora – além do semiparentesco de nossos sobrenomes, creio que só compartilhamos da preferência pelo batom vermelho. Quanto à voz, desafortunadamente não pareço em nada com ela…

            Mas esse fetiche de fingir estar na presença de outra pessoa graças ao aspecto similar de alguém, eu própria já exercitei. Costumava ir a um salão de beleza apenas para ser atendida por uma pedicure idêntica à Clarice Lispector. Da primeira vez em que aqueles olhos oblíquos se curvaram diante de meus pés e reconheci as maçãs do rosto salientes, iguais às da autora, quase fugi. A custo consegui relaxar, mas passei todo o tempo lembrando frases que poderiam despertar a Clarice adormecida naquele ofício tão simples. Depois de comprovar que a moça definitivamente não era a escritora reencarnada, continuei frequentando o salão por brincadeira. Cheguei inclusive a levar amigas, que também se divertiram pensando que era a Lispector quem lhes lixava os calcanhares.

            Nos últimos meses vivo uma sensação parecida no restaurante onde almoço. Um dos garçons é absolutamente igual a Kafka, nos seus vinte anos. Quando vem me estender o cardápio, imagino que são os originais de um livro que me entrega em segredo. Creio perceber uma ansiedade nos seus olhos, nos pômulos largos e até nas orelhas um pouco grandes, que o corte de cabelo ressalta. Tenho vontade de lhe dizer que sossegue, pois será um autor reconhecido e na posteridade estará livre das maldições burocráticas que – tanto quanto a tuberculose – o perseguem. Ele, porém, tal como a pedicure clariceana, não me entenderia.

            Por distração, continuo buscando substitutos de artistas. Quero encontrar por aí o rosto de Tchékhov, de Nijinski ou Baudelaire: eles podem estar em qualquer canto, num consultório médico ou numa oficina mecânica. Quem sabe Villa-Lobos retorne no aspecto de um senhor impetuoso que acaba de entrar no mercadinho – ou Gustav Klimt seja agora esse farmacêutico gordo, que me vende umas aspirinas? Eu me manterei silenciosa mas contente por revê-los, esses sósias que dão à existência uma feição de eternidade.

 

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo)

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5 pensamentos sobre “Sósias

  1. “Eu me manterei silenciosa mas contente por revê-los, esses sósias que dão à existência uma feição de eternidade.”

    Brilhante! E se sentido fizer dizer isto a um texto, acrescento: elegantíssimo.

  2. Tércia, quem não já lhe achou parecida com a Marisa? Desde a primeira vez que lhe vi, numa sala de aula da UFC, me surpreendi: – É a Marisa Monte? rsrsrs. Contudo, deixando a brincadeira de lado, adoro ler o que você escreve e acompanhar suas viagens sensitivas… Bjs!
    Juliane Elesbão.

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