Sob a sombra

      Estive lá para ver os rastros – o crime contra a natureza, que nada justifica. A terra ficou rasgada, fiapos de raízes como vísceras. O que antes era vida virou lixo. Era manhã de sábado, e no parque do Cocó as trilhas se habitavam por ciclistas, botânicos e maratonistas. Casais apaixonados olhavam as garças (bichos que parecem nascidos de perfil e sustentados por palitos), e algum poeta contemplava saguis, com um binóculo. Ouvi de passagem a história da Cinderela, que um pai contou à filha de três anos – ambos sentados diante do rio, tão pacíficos quanto Monet no seu jardim de Giverny.

     Encontrei libélulas, peixes e gatos; palmilhei um chão poroso onde nascem samambaias. Uma abelha me seduziu com seu voo suspenso, hipnótico – e tudo isso aconteceu antes que eu chegasse perto da avenida. Ali se armava o acampamento, a resistência diante da ganância, o humano contra o maquinário. No instante em que me aproximei, alguém baixou o vidro do carro para gritar “Vão trabalhar, seus vagabundos!” – mas logo subiu o fumê de novo, apressado. Os acampados continuaram tranquilos, conversando em voz baixa. Eram homens e mulheres dos mais diversos feitios, e todos trabalhavam. Sim – era preciso dizer àquele senhor dentro do veículo metálico –, o que eu vi no sábado passado foram trabalhadores essenciais, pessoas que labutam no ofício de pensar e habitar uma cidade. Gente que frequenta as ruas a pé e assim deseja continuar, desde que haja veredas, parques e espaços preservados.

      No conto da Cinderela, a protagonista lidava com cinzas e pó, explorada pela madrasta malvada e suas filhas egoístas – e ali os manifestantes também estavam circulando pelo borralho, por entre os detritos de galhos, folhas, vestígios do ocorrido. Vieram escavadeiras e tratores (eu li) e guardas com cassetetes (me contaram), homens com serras (vi as fotos) e mais caminhões carregando as tábuas. A menininha arregalou os olhos quando seu pai lhe contou sobre o vestido e o baile, o encanto da princesa – mas para o Cocó não haverá passes de mágica. O autoritarismo reinará, cruel, a menos que a justiça impeça definitivamente agressões como a fúria desse 8 de agosto.

       Enquanto isso não acontece, os trabalhadores persistem acampando. Eles validam com sua presença uma espécie de voz das árvores: insistem na importância de – contra a luz cega dos ambiciosos – preservar as nossas sombras.

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo)

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4 pensamentos sobre “Sob a sombra

  1. Também estive lá, e meu coração doeu sensibilizado pelo estrago causado por uma gente que não se conscientiza sobre a importância da preservação do meio ambiente, da imprescindível necessidade de habitat para a fauna e da utilidade das nossas matas…
    O curioso é que, além dos guardas armados, os próprios oponentes (pró viaduto) se abrigavam à sombra das árvores…
    – Quanta incoerência!
    Aquém dos discursos ambientalistas, sou, simplesmente, amante da natureza. Reconheço e sei o quão é fundamental, indispensável manter os ecossistemas, para toda a vida que há na Terra.
    Seu artigo mostra que apartidários, sim, preferem o VERDE das florestas!

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