Viajantes farsantes

        Adoro conversar com amigos que, tal como eu, percebem que a vida é uma farsa. No duplo sentido do termo, por ilusão e brincadeira, ao estilo das farsas teatrais ou dos enganos rotineiros, a existência nos prepara surpresas ou deslizes – não mais do que às outras pessoas, talvez, mas o fato de atentarmos para esse enredo mirabolante intensifica o nosso envolvimento e o proveito que daí tiramos.

      Temos observado que as viagens são ocasiões extremas, quando narrativas aventureiras ou excêntricas se desenrolam, a nos transformar em personagens de episódios insólitos. Por uma mistura de caos, conspiração astral ou física quântica, o simples fato de sair da cidade durante uma semana nos transforma irremediavelmente. A sensação de ser conduzido para novos ambientes, com pessoas desconhecidas, outros costumes e paisagens, potencializa as reflexões sobre a vida: afinal, por que não nasci naquela cidade ou país? E como teria sido, se eu pertencesse a uma família amish? E se eu decidisse abandonar as artes para me dedicar à preservação dos répteis da Nova Zelândia? Tudo é relativo; visto sob outra ótica, a regra espanta ou diverte: é uma convenção – ou uma farsa, conforme preferimos.

        A própria vida costuma ser pensada como trajetória, percurso ou viagem – e há estudos interessantíssimos sobre a simbologia que orienta o entendimento humano e as formas linguageiras que daí surgem (vejam, por exemplo, a teoria da metáfora conceptual, com Lakoff e Johnson). Por tudo isso, eu e meus amigos passamos a nos denominar viajantes farsantes: melhor dizendo, voyageurs farseurs, em francês. A preferência por este idioma é descarada, visto que somos profundamente influenciados não somente pelos existencialistas (e pelo conceito de absurdité de modo específico), mas também pelo Collège de Pataphysique, a partir de sua primeira proposição: o verdadeiro patafísico não leva nada a sério, salvo a Patafísica… que consiste em não levar nada a sério. O tom farsante e burlesco aqui não poderia ser mais promissor.

         Embora nosso grupo não precise ser presencialmente constituído – já que dispensamos local de reunião e qualquer ritual que roube a leveza – , identificamos novos membros sempre que alguém manifesta determinado humor. Então, alegremente ouvimos os relatos desse colega, trocamos ideias engraçadas e reconhecemo-nos amigos, embora às vezes o destino faça com que nunca mais a gente se encontre. Foi assim que, num recente passeio à Chapada Diamantina, conhecemos um espeleologista croata, um guia especialista em abelhas africanizadas e vários membros da Liga Canina de Esportes Náuticos. Todos, pessoas ou bichos, tinham o verdadeiro espírito farsante, disposto a celebrar os acasos. Algumas dessas aventuras eu conto na próxima quinzena, para quem quiser esperar.

 Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo)

 

 

 

 

Anúncios

Um pensamento sobre “Viajantes farsantes

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s