Hannah no mundo

Em minha recente estada por terras baianas, tive a chance de ver dois filmes que “pularam” o circuito de Fortaleza: Hannah Arendt e Pra lá do mundo. Os dois partem do que se pode chamar de “vida real” – se é que isso existe, ou se persiste, quando incorporado em obras de arte. Também há quem diga que só estas são verdadeiramente reais – mas este é assunto longo, para outra oportunidade… O primeiro filme escolhe o período histórico e biográfico de 1963, quando a filósofa Hannah Arendt publica uma série de artigos após acompanhar o julgamento do nazista Eichmann. Suas reflexões, que depois seriam reunidas no livro clássico sobre a banalidade do mal, deram origem a uma forte polêmica que fez a estudiosa ser atacada na imprensa e perder o convívio de velhos amigos, incapazes de perdoá-la pela análise cerebral – e não raivosamente indignada – do perfil de um nazista.

Talvez o grande problema de Hannah tenha sido a exposição num veículo tão popular (a revista New Yorker). Obviamente ela estava consciente de que seus artigos abordavam, pelo nível de linguagem e de ideias, questões que a maioria das pessoas não conseguiria acompanhar; portanto, as polêmicas e os enganos de interpretação eram esperados. Ela poderia escolher o outro caminho, da apreciação restrita aos pares: se tivesse publicado o texto apenas na forma de livro, quantos leigos teriam acesso a ele? É de supor que a circulação da obra ficasse na mão de outros intelectuais: isso não anularia os combates de todo, mas certamente diminuiria – e muito – as simples ofensas apaixonadas.

Hannah Arendt teve coragem ao escancarar seus argumentos dessa maneira, mas jamais saberemos até que ponto ela se arrependeu ou não da escolha. Imagino que tivesse escrito o mesmo texto sempre, sob quaisquer circunstâncias; ele era resultado de seu pensamento e, dentro da coerência de seu raciocínio, não poderia negá-lo, ou deixá-lo sem ser escrito. Porém, quanto ao desgaste trazido pela publicação na revista – com tantas vozes e espasmos, tanta confusão e calúnia em resposta… Ela deve ter ficado profundamente cansada por ter de se explicar. É o rosto de uma mulher cansada (embora não derrotada) que vemos na tomada final desta película.

Às vezes as lutas são exaustivas demais, e a gente pensa que tudo poderia ter sido de outra forma, bem mais simples e pacífico – como o tempo se encarrega de fazer. A distância relativiza as dores e as necessidades, a emoção extrema vai se calando; se não surge a harmonia, pelo menos algo muito parecido se insinua – a tranquilidade. Pra lá do mundo trata disso, no feitio de um documentário. Há uma dose de coragem necessária para tomar a decisão de largar um estilo de vida, adotar outro – e, se as consequências dessa ousadia parecem incomodar menos, ainda assim existe plateia. Como no caso de Hannah Arendt, as pessoas estão dispostas a criticar, distorcer. Porque estão igualmente assustadas – com as ideias e os gestos inesperados.

Deixar uma grande cidade para viver de maneira quase primitiva, num lugarejo da Chapada Diamantina: você conseguiria? O que se ganha em paz, meditação e sentido da existência – o que se ganha em filosofia, seria possível dizer –, perde-se em conforto, informação e prestígio social. É como enterrar-se vivo, dizem alguns: não há acesso a máquinas, bens de consumo, modismos. A desconexão com o sistema cria essa aparência de que você não existe: está bem longe da burocracia, passa despercebido para as estatísticas. Em troca, aprende-se a respirar fundo. Adquire-se um olhar calmo, sem ansiedade. Não há urgências. Essa placidez – agora eu vejo – talvez se confunda com marasmo… ou cansaço. Quem sabe se Hannah também não atingiu isso, a seu modo? Ela não precisava se afastar das metrópoles fisicamente; pelo pensamento, alcançou um lugar de crescimento interior. Mas esse tipo de coisa só acontece com mentes para lá de privilegiadas.

   

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