Diamantinismo

       O grupo era formado por um sociólogo, um jornalista, um engenheiro e uma professora (esta que lhes escreve). O engenheiro, francês, lançava um toque blasé à excursão, e a cada choque cultural sussurrava: “C’est très singulier”, sem maiores juízos ou comentários. Inspirados no Pireneísmo – um tipo de montanhismo praticado nos Pirineus – nós seguimos o lema “Subir, sentir e narrar”, que garante uma experiência completa aos esportistas capazes de escalar a montanha, sentir sua atmosfera poética e depois contar as vivências num relato inteiriço.

        Na França, há inclusive uma revista dedicada às publicações dos aventureiros que adotam o Pireneísmo. Como estávamos na Chapada Diamantina, naturalmente tivemos de fazer adaptações. No meu caso, isso significou boas doses de coragem e desprezo por meu próprio desgaste físico. Para chegar à Cachoeira do Buracão (o passeio “mais leve”, segundo os guias), saltei inúmeras pedras, traumatizando-me eternamente para o jogo da amarelinha (embora não o de Cortázar, é claro). Fiz a travessia por uma ponte-tábua entre desfiladeiros, pois a outra opção era ficar à deriva dentro da água congelante, no cânion. Cheguei à cachoeira após um trajeto na chuva, agarrando-me às reentrâncias das pedras.

     Depois de moer a musculatura das pernas, atravessei de volta aquela paisagem lunar, com pequenas explosões de bromélias, vassourinhas, maçarandubas e candombás – a planta fênix, que nunca queima, conforme disse o nosso guia, que também era especialista em reconhecer abelhas selvagens e nos alertou em relação a dois enxames, dos quais felizmente conseguimos escapar. Na última parte do trajeto, eu estava tão exausta que só pude descer a trilha de terríveis pedras porque dava a mão a um amigo – e foi assim, como se seguisse para uma contradança, que cheguei a solo firme.

        No outro dia, experimentei as belezas do Poço Azul, com sua água invisível dentro da qual boiamos sobre abismos rochosos. Uma pedra específica, grande como um rosto gritando, era a mais temível: sua mandíbula fazia pensar em velhos rituais de sacrifício – mas pelo jeito ela não espantou o casal estrangeiro que encontramos no final do banho. A moça, eslovena, e o rapaz, croata, pesquisavam estalactites. Quando questionado sobre a viagem tão distante até este Brasil nordestino, o jovem afirmou que estava “živjeti ursan život u Hrvatskoj” – ou seja, vivendo uma vida de merda na Croácia… Óbvio que isso justifica uma boa fuga para a Chapada Diamantina.

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo)

Cachoeira do Buracão

 

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