Todos os santos

      O turismo de aventura que enfrentei na Bahia, em agosto, justificou que eu chegasse no último dia a Salvador agradecendo a todos os santos pela integridade física, que a duras penas conservei. Não por acaso, a agência turística havia solicitado a minha assinatura de um “termo de conhecimento de riscos”, junto com o preenchimento de um questionário imenso, que indagava sobre mil tipos de alergias, câimbras e micoses que eu pudesse ter. No meio das incontáveis perguntas, havia uma voltada para homens: “Já serviu ao exército?” Meu namorado respondeu – no questionário dele – que sim, e acrescentou ter feito o ralo da boina com grande ímpeto de bravura.

       O questionário prosseguia, querendo saber da nossa experiência com natação em pântanos e equilíbrio na areia movediça. Perguntava se já tínhamos disputado um cacho de bananas com uma família de macacos – e o mais importante: vencemos? Eu marcava os itens com a impressão de que seria reprovada na seleção para o passeio. Fiz um xis para assinalar que temia insetos peçonhentos e outro para assegurar que não, não levava comigo o antídoto para o veneno do Phyllobates Terribilis – será que poderiam adicionar um frasco na bagagem? De toda maneira, eu teria cuidado com sapos de aparência carnavalesca…

      Depois de trilhas e escaladas entre três pequenas cidades – Igatu, Mucugê e Ibicoara – a parte pavorosa chegou ao fim. O Morro do Pai Inácio, em Lençóis, pareceu uma subida modesta para quem tinha enfrentado um treino tão árduo. Felizmente, a culinária (além da paisagem estonteante) nos consolava: bolinhos de chuva e sequilhos no café da manhã, suco de melancia ou mangaba – e o principal: um almoço com godó de banana e picadinho de palma. Pela primeira vez, eu tive vontade de aprender a cozinhar… Quem diria que isso ia acontecer na Bahia? E não foi com acarajé!

      Pisando em Salvador, tive uma hora de redenção; do alto do Farol da Barra, dei graças aos céus. Evoé, meu São Gregório de Matos, por esta beleza toda! Evoé, meu São Castro Alves em gesto-poderoso de estátua! E os outros divinos que por ali passaram: Pierre Verger, Caymmi, Jorge Amado, Zélia Gattai (fotógrafa!), Padre Vieira com seus sermões ainda ardentes no púlpito… A vibração explodiu com o Olodum no Pelourinho, descendo a ladeira sob a imagem em display do Michael Jackson na sacada de uma loja. Já estava bem perto de eu pegar o avião de volta – mas não me despedi sem trazer para Fortaleza as bênçãos de Obá e Iansã.

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo)

Um pensamento sobre “Todos os santos

  1. Um dia ainda irei conhecer o que a Bahia tem… essa terra de todos os santos! =) Crônica super divertida! Parabéns (atrasado) pelo seu aniversário Tércia! =p

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