As ilhas

         Caro leitor: esta é mais uma de minhas crônicas de viagem – mas, ao mesmo tempo, é diferente de todas as outras por ser a primeira que escrevo viajando. Desta vez não houve tempo para decantar as impressões ou selecionar episódios com um fio temático específico, costurando figuras e paisagens pelo artifício da memória. Estou na Alemanha, numa fria madrugada de domingo, pensando no fiel leitor e tentando ser uma fidelíssima autora, que honra seus prazos literários. Que outro motivo me faria abdicar do sono para escrever dentro de um hotel com vista para a Alexanderplatz?

            Revejo algumas situações engraçadas… e em viagens sempre há cenas bizarras. Para falar a verdade, a coisa já começou no avião, com uma aeromoça de expressão robótica que não parava de circular com um bule, oferecendo em inglês – e com uma entonação apressada de quem alimenta galinhas – “Tea? Tea? Tea?” Depois, na minha chegada em Frankfurt, descobri, na Goethe Haus, um elemento de fetiche no teatrinho de fantoches que o autor alemão ganhara na infância. Ele continuou a usar o brinquedo pela vida adulta, nos momentos de ócio, quando não estava levando seus personagens para o suicídio ou o pacto satânico. E, por falar em obscuridades, a questão linguística está sendo uma diversão por aqui: com um trôpego inglês e a ajuda da mímica universal, eu até me comunico com os alemães – mas, mesmo assim, há estranhezas.  Ontem alguém pronunciou South America, e tive a impressão de que dizia Satan American – o que foi bastante assustador.

            Confusões à parte, o tema desta crônica merecia ser outro, bem mais sublime – se eu estivesse com tempo para desenvolvê-lo dignamente. Falaria sobre a Ilha dos Museus, a Museumsinsel, em Berlim. Teceria detalhes sobre as horas que passei conhecendo pintores alemães como Max Liebermann, Gustav Spangenberg, Fritz Von Uhde e Carl Spitzewg. Descreveria a sensação trêmula que se tem diante de uma tela de Caspar David Friedrich, ou a doce melancolia das catedrais góticas pintadas por Karl Friedrich Schinkel.

            Talvez eu dedicasse um parágrafo – o último – ao Neues Museum. A sua coleção egípcia é riquíssima, com sarcófagos antropomórficos, estelas e relevos funerários, e muitas, muitas estátuas. Quer conhecer a Esfinge de Schepenupet II, esposa do deus Amon, representado pela figura de um carneiro? Está lá. Tem curiosidade por ver a cabeça de Nefertiti e constatar que um de seus olhos não faz falta? Pois essa é a chance. Além disso, no acervo há inúmeras representações de Bastet, e agora eu percebo por que adoro os egípcios: eles já sabiam que os gatos são deuses. A saudade de casa começa pelos felinos, e daí eu me fragmento ainda mais, penso em outras ilhas, fora da arte e da geografia… São três da manhã; sorte que esta crônica termina aqui.

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo)

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Um pensamento sobre “As ilhas

  1. “…a coisa já começou no avião, com uma aeromoça de expressão robótica que não parava de circular com um bule, oferecendo em inglês – e com uma entonação apressada de quem alimenta galinhas – ‘Tea? Tea? Tea?’ ”

    Ainda estou rindo imaginando a cena da aeromoça. Fez-me lembrar de quando, ainda criança, alimentava as galinhas lá no interior do Maranhão.

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