A lição de Frankfurt

       Estive na Alemanha para fazer um ciclo de leituras, como parte da programação da Feira de Frankfurt. A editora Lettrétage, que estava lançando o livro Wir sind bereit. Junge Prosa aus Brasilien, sob a organização de Marlen Eckl, conduziu a minha agenda e a de outros autores brasileiros que integravam esta antologia de contos. Assim, começamos por nos apresentar em Dresden, na Literaturhaus Villa Augustin. Em seguida, viajamos a Berlim, para um evento na sede da própria editora. Apenas em 10 de outubro, chegamos a Frankfurt, e então eu pude conhecer as outras belas antologias de que estava participando – a Wenn der Hahn kräht – Zwölf hellwache Geschichten aus Brasilien, da edition fünf, com organização de Wanda Jakob e Luísa Costa, e a Der schwarze Sonh Gottes – 16 Fußballgeschichten aus Brasilien, da Assoziation A, sob organização de Luiz Ruffato.

      Na noite anterior, Ruffato fez o discurso de abertura da Feira – e eu, que ainda não estava lá, li suas palavras em vez de ouvi-las: um texto emocionante e justíssimo. No entanto, em conversas ou debates no frenesi dos pavilhões, depois ouvi algumas pessoas se posicionando contra aquela postura de “expor os problemas para o estrangeiro”; elas pareciam envergonhadas, de certo modo, e foi com espanto que eu constatei como a dignidade pode ser confundida com sentimentos passivos. Ao contrário, se não admitirmos os problemas – antigos e atuais – daquilo que nos constitui como país, como iremos mudá-los? E por que não aproveitar uma ocasião como a Feira de Frankfurt, quando o Brasil estava posto na vitrine? Dignidade me parece justamente esse ato de levantar a cabeça e não aceitar as podridões ou fingir que elas não existem.

          Não se trata de literatura ideológica, planfetária: quem fizer essa acusação jamais leu um parágrafo dos romances de Ruffato. Em sua obra, ele transborda estética, invenção linguística, poesia – e, lógico, aborda todo tipo de tema, inclusive os sociais, que fazem parte da humanidade. Na Feira, embora seja óbvio constatar, eu ressalto que ele não estava produzindo literatura. Estava cumprindo a programação do evento, com inúmeros compromissos em palestras, além da abertura do dia 9. Agia profissionalmente, embora fora do pleno exercício de seu ofício, que só se realiza de fato com a criação escrita. Dentro dessas circunstâncias de sua condição, portanto, ele aproveitou a visibilidade para dar um sentido político ao momento.

            Talvez os artistas ainda sejam vistos dentro de uma postura romântica, confundidos com lunáticos, boêmios ou insanos que se recusam a olhar o que é real demais. Pior: talvez alguns acreditem que deva ser assim, que o artista precisa ter essa aura e viver como alguém sem senso prático, que se contenta com festejos ou confetes, enquanto um fosso sério se abre em tantos lugares… É perigosa essa ideia, porque, se notarmos bem, nada do que Ruffato falou em seu discurso é novidade ou ficção, e no fundo todos conhecemos o lado negativo do perfil brasileiro. Por que a sua exposição causaria escândalo? A quem a verdade ofende, e por quê? Esse é o grande ponto que fica ressoando após a Feira.

            Não por acaso, a maioria dos alemães aplaudiu a coragem reflexiva de Ruffato, aceitou o seu discurso. Eles sabem que um país cresce na medida em que encara – e supera – os seus erros históricos, as suas tragédias.

 

Tércia Montenegro (texto publicado hoje no jornal O Povo)

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