Jantar com Brecht

     Além das inúmeras atrações museológicas de Berlim e dos passeios por suas pontes com paisagem de outono, um ponto inesquecível da minha viagem foi a casa de Brecht. Fora do circuito turístico, a residência do dramaturgo alemão hoje se abre para visitação, e toda noite funciona ali, nos porões onde havia a cozinha de Helene, um restaurante peculiar.

    O cardápio lista os pratos que a esposa do poeta lhe preparava – e é algo quase místico pedir uma refeição naquele ambiente. Sentei-me a uma mesa de cinco pontas: uma daquelas de carteado, onde Brecht possivelmente jogava com os amigos. A mobília parece autêntica, assim como as luminárias, que são verdadeiros spots (retirados dos teatros onde Brecht estreou?), suspensos como lustres. Nas paredes, há retratos do artista e textos musicais em moldura. Pequenas caixinhas simulam palcos e composições cênicas: vemos um teatro em miniatura, à espera de personagens para habitá-lo. Ali estavam os acessórios d’A ópera dos três vinténs, e mais adiante se adivinhava a atmosfera de Santa Joana dos Matadouros por alguns elementos mínimos, como reproduções de brincadeira.

    Para comer, que tal um wiener schnitzel, ou um escalope à vienense? Quem sabe uma carne cozida com salsa de albaricoque e rábano picante? Ou então um gnocchi de Salzburgo – ou um crepe recheado com diversos tipos de quark (seja lá o que isso for)? O menu, mesmo traduzido para o inglês e o espanhol, lançava uma zona de mistério à escolha. Não foi algo preocupante, porém: logo constatei que a comida era excelente e, apesar de no primeiro momento assustar pela fartura de carnes gordurosas, parecia incrivelmente leve. Talvez fosse o clima frio a me exigir quantidades calóricas extras, ou talvez eu estivesse disposta a ousadias culinárias em nome da arte… não sei ao certo o motivo, mas o fato é que jantei com um apetite impressionante e no dia seguinte acordei me sentindo muito bem!

    A Brecht Haus, além de seu restaurante-adega, ainda funciona como espaço cultural, promovendo palestras, lançamentos de livros e outros eventos interessantes. A agenda é bem diversificada, aberta a nomes consagrados ou iniciantes. Aliás, o bom de conhecer um lugar desses é justamente a sensação de se misturar com os ídolos, ter a chance de vê-los como pessoas, com uma vida íntima e trivial inclusive, parecida com a de qualquer um de nós. Pela falta de costume, ainda me assusto com esse impacto: quase desmaiei quando soube que na Literaturhaus Villa Augustin, em Dresden, onde eu fizera uma leitura, também Herta Müller (a maravilhosa autora d’O compromisso, Nobel de 2009) havia estado, concedendo uma entrevista.

    Mas às vezes os lugares e as épocas não parecem tão inatingíveis. Entramos numa igreja medieval, jantamos na casa de um artista morto há quase sessenta anos, ou subimos ao domo de uma catedral que, em sua cripta, guarda caixões de príncipes do século XVI… Este é um real acesso à história, uma forma de entender as experiências alheias e entrar no mundo.

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo)

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