Arte e loucura: Anne Sexton

Terminei de ler a biografia de Anne Sexton escrita por Diane W. Middlebrook, e me sinto como que intoxicada. Esta autora (que eu não conhecia, até que um querido amigo me presenteasse com a história de sua atormentada vida) tem realmente bons poemas, mas o fato de ter começado a escrever como uma opção terapêutica, uma recomendação do psiquiatra, não pode ser um detalhe. Qualquer tipo de motivação é justificável para que se busque a arte, sim. Entretanto, se o artista é necessariamente alguém incomum, isso não quer dizer que seja sempre um transtornado. A proximidade (ou fusão) entre arte e loucura nem sempre dá certo. Quando dá, temos Sexton, Qorpo Santo, Bispo do Rosário e tantos outros nomes maravilhosos. Mas apesar disso, não nos iludimos: a loucura jamais será condição criativa essencial: um pouco de extravagância, de sensibilidade excessiva, talvez; mas loucura mesmo, como a que Sexton dizia ter, a ponto de internar-se em hospícios, é outra coisa.

Um doente mental tem tendência ao egotismo. Os especialistas saberão se isso acontece como parte de sua condição ou como característica independente, associada a um tipo de luxúria com a própria deficiência. Muitos bipolares, depressivos etc costumam se anunciar como tal sem o mínimo constrangimento; ao contrário, querem chamar a atenção sobre si, invocar cuidados especiais ou – como foi o caso de Sexton – querem que a vida alheia gire em torno deles, sem se importar com os efeitos de suas crises sobre os demais. Esta autora norte-americana, além de se derramar em textos confessionalistas e se comprazer com entrevistas e todo tipo de propaganda que expusesse sua intimidade, também fazia a família funcionar em prol dela e de sua poesia. Ninguém a contrariava, para que não se suicidasse, e assim ela mantinha as marionetes em seu poder, concentrada nos próprios sintomas, nas oscilações de nervos (e informando a todos sobre isso, em poemas ou de outras maneiras). Quando as filhas cresceram e o marido obedeceu à sua ordem de divórcio, ela se matou, para continuar a existir na forma de culpa sobre eles. É esse resumo de um jogo de manipulações que me intoxica, porque não acredito que nada justifique um aprisionamento. Sexton estava presa em sua doença, libertava-se ocasionalmente com arte, ok – mas não teve nunca o direito de sufocar outras pessoas, enfiar-lhe seus problemas à força ou através de algum tipo de chantagem emotiva.

Eu sou da opinião de que os loucos – sejam ou não também gênios ou artistas – não podem ter mais direitos do que ninguém. Não se pode tratá-los como eternas vítimas merecedoras de sacrifícios, porque eles, por sua vez, também fazem suas vítimas entre amigos e familiares. O círculo nunca se fechará, se cada um não perceber os limites do que é problema e do que pode ser auxílio.

2 pensamentos sobre “Arte e loucura: Anne Sexton

  1. Olá Tercia , tenho acompanhado suas postagens, seus textos são muito bons, te conheci lá na Telma grande amiga, não sei se vç lembra,sou muito amiga do Glauco,Paula, enfim somos uma grande família. Um grande abraço, Solange.

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