Eclipses

Não é todo dia que temos em Fortaleza um eclipse solar – assim, eu fiz o sacrifício de acordar cedo no último domingo e me juntei aos vizinhos que tinham madrugado perto da caixa d’água do prédio. Por volta de sete da manhã, éramos umas trinta pessoas circulando por entre antenas de televisão e internet, e cada um de nós levava uma radiografia através da qual poderia enxergar o fenômeno celeste. Ora, foi justamente esse fator que ocasionou constrangimento. Tudo começou quando um médico arrancou das mãos de uma senhora o raio-X que ela vinha segurando em direção às nuvens. “Essa pessoa ainda vive?”, perguntou ele, ríspido. Recebendo uma perplexidade muda em resposta, o médico completou: “Seria impossível, com essa tuberculose avançada!” – e devolveu a imagem dos pulmões à velhinha carcomida.

Eu me afastei da dupla, mas então fui alcançada por um senhor, residente de um dos mais altos andares. Ele me mostrou sua radiografia dentária, perguntando se eu achava que o tamanho dela era suficiente para servir de proteção aos olhos. Reparei no retângulo com a silhueta mandibular e disse que sim, estava ótimo – mas na verdade fiquei chocada em descobrir que todos os molares do homem eram sustentados por pinos. Esse é o tipo de coisa que você não quer lembrar, quando recebe um sorriso de cumprimento no elevador.

Mas afinal eu continuava à espera do eclipse. Talvez quisesse reviver a sensação da infância, quando o cometa Halley me trouxe o primeiro impacto astronômico. Agora, porém, o clima não era nada intimista; qualquer tom misterioso ou tendência para a ficção científica desapareceria sob os gritos dos meninos correndo pelo terraço com caleidoscópios e óculos 3-D – além, é claro, das folhas de radiografia, que eles agitavam para criar som de tempestade. Suas mães se inclinavam em cadeiras desdobráveis, como se estivessem na praia: é provável que não quisessem abandonar o hábito dos domingos. Calculei que alguém certamente preparava caipirinhas na casa de máquinas, longe da ventania (dentro de poucos minutos, o sol seria mordido pela lua, e os drinques começariam a ser servidos). Mas, por falar em vento, de repente uma rajada arrebatou os exames radiológicos, que se confundiram numa pilha frouxa, junto de uma parabólica. As pessoas começaram a correr para recuperar as chapas, mas o médico conteve todas com um grito. Cabia a ele, como profissional da área, coletar e distribuir aqueles produtos.

Entrei na fila que se formou, atenta aos chamados. “Quem quebrou a tíbia?”, perguntava o médico, e um adolescente magro se adiantou. “E luxação de quadril, quem teve?” Um dos garotos barulhentos disse “Eu!” com visível orgulho.  Fiquei aborrecida com aqueles segredos ósseos escancarados – e, quando o médico engasgou, eu já sabia com qual radiografia ele estava. “Quem… quem tem… um rabo?” “O meu gato”, respondi, e peguei o raio-X de três anos atrás, quando o veterinário suspeitou de uma neurite, graças a Deus não confirmada. Com a lâmina em frente ao rosto, eu finalmente contemplei the dark side of the Sun, conforme o comentário de um rapaz que me fitou com jeito sinistro.

 

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo)

 

 

 

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