Artista ou professor

     Grandes autores, além de atiçarem novas ideias, levantam a poeira de antigos temas, posicionando-se de modo infalível. Assim é Julio Cortázar, que em muitos textos assumiu uma postura de ardor revolucionário, mas jamais deixou que a política interferisse na literatura. Cortázar manteve-se mágico, sabendo que arte é fantasia e iluminação, e qualquer ficcionista que mergulhe demais na realidade pode emergir como um planfletário rançoso – o que equivale a uma destruição estética; destrói-se o olhar inventivo, e o criador não existe mais.

      Se o contexto hoje é diferente (será?), nem por isso se perde a força dos argumentos enfáticos de Papéis inesperados – essa publicação póstuma que é uma miscelânea de gaveta, com o sabor secreto da escrita de Cortázar em diversas circunstâncias. Aqui temos o ocaso (mas nunca o caos) a reunir contos, poemas, entrevistas ou palestras. E, numa das páginas, a reflexão que (suspeito) ninguém soube tão bem formular: O artista não é um professor. Diz o argentino: “O criador é aquele que se adianta. Como poderia enriquecer o mundo se sua obra fosse condicionada pela necessidade de ser imediatamente entendida, assimilada, aproveitada?”

     Contra ideias utilitárias ou docentes, afirma-se Cortázar. Contra o sectarismo que se insinua a cada vez que um repórter pergunta a um artista (seja de que área for) o que ele quis dizer, ou qual o tipo de mensagem da sua obra. Na maioria das vezes, o artista é a última pessoa capaz de responder – porque, embora possa (e deva) lidar com técnica e intenções, não está em seus propósitos capturar todas as instâncias do processo criador – e, principalmente, os resultados, reverberações ou consequências que escapam de seu domínio para os setores mais comerciais, de mídia, divulgação etc. É deste outro lado da obra que o artista não está; ele a vê de um ângulo diverso, e é absurdo forçá-lo à postura assumida pelo crítico, pelo resenhista ou pelo leitor. As outras pessoas sempre terão visões próprias, incontroláveis, e não cabe ao artista guiá-las ou instruí-las com dicas ou muletas explicativas. Quando elas aparecem, aliás, têm o efeito de empobrecimento – aquela já não é a obra autêntica, com o mesmo impacto. E os leitores, avisados previamente, apenas seguem o mapa do que esperam encontrar, sem o prazer de se perder pelos caminhos.

      O artista não deve ser caridoso. Ao contrário, às vezes sua única forma de se expressar é através da impiedade com palavras, ritmos, cores ou gestos incomuns, que talvez pareçam estranhos, incompreensíveis para o leigo. E justamente ao evitar a complacência de uma obra “facilitada”, o artista força a sociedade a se mexer, sair da anestesia geral. Por um gesto pretensamente egoísta, pode-se atingir um proveito coletivo – diz Cortázar – mas isso é conseguido sem militância. O compromisso de um artista é entregar-se à sua obra, e para além desta não há nada melhor que ele possa fazer.

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo)

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