Para não virar vodu

Dentre as experiências que a vida me interditou (além do ciclismo e da prática de esgrima, por exemplo) tenho de incluir também a acupuntura. Na semana passada eu fui, cheia de inocência, a uma sessão agendada três meses antes, com um médico disputadíssimo. Várias pessoas me haviam feito ótimas recomendações: acupuntura é relaxante, milagrosa etc. O pior relato que escutei esteve marcado por um simples desânimo – aquelas agulhinhas não faziam a mínima diferença. Portanto, eu realmente não esperava que a situação comigo ficasse à beira do trágico, com um mal estar generalizado, febre, dores e cicatrizes que até agora não fecharam. E tudo poderia ter sido ainda mais intenso, se eu não estivesse apressada na ocasião. O médico anunciou que faria um procedimento simples e rápido; de outra vez, faria a sessão completa, com meia hora de duração. Ele passou um analgésico, para que eu não adivinhasse a calibragem das agulhas e o bordado em ponto-de-cruz que fez nas minhas costas. Fui perceber isso horas depois, quando toquei os calombos ainda sangrando e inflamados.

Hoje retornei ao consultório somente para dizer que não faria mais nada. O médico nem se interessou por examinar minha pele; comentou que eu devia ter tido uma reação alérgica ao metal e que “era assim mesmo”. Pois adeus, eu disse, e enquanto esperava o elevador encontrei uma mulher quase tão fanática com a acupuntura quanto aquele profissional. Depois de ouvi-la suspirar de êxtase após uma sessão, eu falei: “A senhora é uma sortuda; comigo as agulhas fizeram isso” – e mostrei minhas costas lesionadas. Ela sorriu e disse: “Ah, mas eu também fico assim! O pior é quando o doutor inventa uma raspagem com chifre e umas ventosas. Passa uma semana roxo e doendo – mas fazer o quê, se eu relaxo?” O elevador chegou, e eu desci pensando que algumas pessoas deveriam contratar torturadores privados – ou então, psiquiatras severos, que lhes ensinem que o prazer não precisa ser atingido em antítese à dor!

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