A faxina terapêutica

    Começa dezembro, e aqui em casa nada de estranho aparece: nem árvores natalinas, nem bonequinhos barbudos ou feitos de falsa neve – nada que seja descontextualizado com o Ceará. Uma vez pensei em enfeitar um cacto que tenho na varanda, mas não decidi quais os acessórios oportunos e também imaginei que o processo de adorná-lo seria espinhoso, de modo que abandonei o plano. Na verdade, o importante durante este mês não é realmente o que possa surgir (em termos de decoração ou em outro aspecto), mas o que vai embora.

    Sim, dezembro é a época ideal para o que chamo de faxina terapêutica. À diferença do asseio obrigatório, que acompanha a rotina doméstica, este tipo de limpeza tem caráter especial: consiste em “colocar abaixo” os trecos, esvaziando armários e gavetas, numa compulsão por se desfazer do inútil, dos objetos desencantados. Parece que o novo ano só começa quando se abre esse tipo de espaço para as coisas – e chega de entulho do passado! Eu precisava me desfazer de livros, telas, roupas; precisava vê-los enchendo caixas inteiras, para sentir que estou leve, receptiva ao que virá.

    Não pense o leitor que esvaziei completamente a morada; ao contrário, ela continua cheia de utensílios, de recordação e arte. Mas agora – mais do que no ano anterior – creio que ela me retrata na medida certa. Aqui estão as minhas escolhas: os objetos que selecionei para viverem comigo, presentes em cada dia. Óbvio, estes também não vão permanecer para sempre (o que, aliás, seria impossível); vou me desapegar de muitos no futuro, e talvez só resistam alguns livros extremamente amados, algumas peças que de fato me traduzem. Por hoje, no entanto, a seleção está perfeita. Tenho prateleiras vazias, pregos despidos de quadros – as paredes respiram.

    O valor terapêutico desta faxina depende de o próprio morador executá-la. Não adianta delegar o serviço a ninguém – mesmo porque outra pessoa jamais saberia quais artigos alheios deve jogar fora. O critério não depende das condições materiais; às vezes, um bibelô velhíssimo e trincado vale bem mais que um eletrodoméstico, em termos de afeto. Portanto, o verdadeiro interessado deve decidir onde o desapego funciona e até que ponto está preparado para não tornar a pôr os olhos em determinado objeto. Tal exercício de desprendimento é uma verdadeira terapia: envolve coragem para se despregar de referências antigas, libertar-se em direção ao desconhecido.

    O outro lado deste processo também satisfaz. Sempre, numa faxina de grande porte, encontramos coisas que estavam esquecidas. Um texto maravilhoso que há tempos não relíamos, um caderno de anotações bizarras, um álbum de viagens que nos faz viajar outra vez, frascos de perfume antigo… Alegro-me com os prêmios da caça ao tesouro, as relíquias resgatadas. O resto – que virou presença incômoda – vai se juntar ao entulho lançado porta afora.

Tércia Montenegro (crônica publicada ontem no jornal O Povo)

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