Em despedida

Hoje, leitor, enquanto você folheia este jornal, eu estou na África. Não, não cheguei a fazer como a Karen Blixen, que se mudou para uma fazenda africana. Apenas viajei a Cabo Verde para fazer uma conferência na Feira Mundial da Palavra. O título desta crônica, portanto, não diz respeito a um adeus geográfico, embora mesmo assim se refira a territórios. Porque a partir de hoje não escrevo mais nesta seção d’O Povo.

A famosa saída à francesa nunca me pareceu coisa elegante de se fazer. Creio que todo mundo que vai embora deveria dizer até logo, distribuir abraços, flores ou algo desse tipo. Simplesmente desaparecer, criando um buraco de ausência, é agressivo. Se nem sempre podemos evitar as separações bruscas, que pelo menos o ritual do adeus surja, quando a partida for planejada. Saberemos que houve a conclusão explícita de uma fase, e há um lado bom em fechar os ciclos. É por isso que agora escolhi não falar sobre a África, sobre suas paisagens e gentes – pulo o tema de viagem para me concentrar nesta despedida.

Lembro, a propósito, a performance da artista Marina Abramović, quando ela e o seu grande amor, Ulay, decidiram se afastar, após mais de uma década juntos. Eles precisaram de um símbolo, um momento de ruptura que bifurcasse seus caminhos e ensinasse às suas mentes que já não eram mais um casal. Então combinaram de percorrer a muralha da China, cada um de um lado, até se encontrarem no meio, para um último abraço.

Pois este texto é a minha muralha: cada frase cria o trajeto que oficializa minha partida, da coluna Opinião. Foram quase quatro anos publicando quinzenalmente nesta página, o que me originou cerca de cem crônicas. Metade delas ganhou corpo no livro Os espantos, editado pela Demócrito Rocha em 2012. Outra parte foi reunida no ebook Meu destino exótico, publicado pela Amazon há poucos dias e que pode ser adquirido em http://www.amazon.com/dp/B00H27TYLA.

            Durante todo esse tempo, experimentei temas, fictícios ou não; documentei reflexões e aventuras, em circunstâncias variadas. E o melhor: conheci pessoas que me escreveram compartilhando relatos – a maioria, gente ótima, amabilíssima. Houve dois ou três agelastos, infelizmente, e a estes rabugentos expresso o meu desejo de que, de uma vez por todas, explodam (de rir, é claro, a ver se alcançam a cura para o seu mau humor).

Como tudo muda ou se transforma, lá vou eu para novos rumos literários, projetos diferentes, que me empolgam e exigem dedicação. Despeço-me de quem seguiu estas linhas – mas garanto que não é preciso ficar na saudade: você ainda pode acompanhar os meus textos pelos livros e também pelo blog http://www.literatercia.wordpress.com. As histórias continuam e, após a muralha, ainda virão muitas peripécias!

Tércia Montenegro (crônica publicada no jornal O Povo em 18/12/2013)

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