A Cesária o que é de Cesário

A CESÁRIA O QUE É DE CESÁRIO

Tércia Montenegro

26/12/2013

       Só agora, que já “assentei a poeira” desta última viagem, posso organizar as minhas impressões – tão boas e impactantes – da África. De uma parte dela, melhor dizendo: a parte talvez mais próxima de nós, pela língua, pela arquitetura colonial, pela culinária que herdamos dos portugueses. “Que Cabo Verde não amadureça!”: era o refrão dos amigos poetas, que (re)encontrei graças à Feira Mundial da Palavra. Num pequeno grupo bem humorado, exploramos as marcas de uma cultura ainda intacta – e não somente no passado luso que citei, mas em outros ricos indícios, de uma raiz bem mais remota. Os penteados e as roupas, com distinções tribais, a incrível destreza dos belos corpos negros, o artesanato (com as franjas dos panos de téra, a ressaltar os movimentos dos quadris), tudo era ensinamento ancestral.

            A paisagem às vezes parecia indecisa, entre a caatinga e a savana. No ônibus do time futebolístico Tubarões Azuis, fiz um passeio de reconhecimento. Na praia de São Tomé, divisei um cenário de descobrimento; a areia escura, de chão poroso como um bolo macio, abria-se para águas infinitas. Na Ponta Bicuda, diante da praia Mulher Branca, uma chapada exibia as fases geológicas do terreno, e alguns turistas aproveitaram para catar pozolanas, as rochas vulcânicas que assumem desenhos curiosos. Não desci à Cova de Lázaro, o famoso bandido que fez de certa gruta o seu refúgio – e não me arrependi. Disseram-me que havia ali ossadas de cães caídos por descuido.

          De outros locais, já mais perto do Plateau, estende-se costa de Santiago, em sua forma de ferradura. Do restaurante “O poeta”, visitei o farol de D. Maria Pia, dito “A ponta temerosa”, guardado pelo velho Malaquias e seu sobrinho, o atual faroleiro Jorge. Ambos eram de uma simpatia irresistível, daquela que nos constrange na hora de partir (porque afinal queríamos ficar, para um café e uma longa conversa sobre a vida). Ali, com o sabor do vento marítimo, senti palpitar minha aventura africana. Em frente, o ilhéu de Santa Maria sobressaía-se, e eu já tinha ouvido as pessoas murmurarem sobre o antigo leprosário. Imaginei fantasmas mutilados e tristes naquele gueto – e depois pensei nos três pescadores que se perderam, saídos para um dia de trabalho normal. Talvez tivessem ido em busca de atum, um dos peixes mais atrativos de Praia. Por algum motivo, escapou-lhes a rota, e ficaram sozinhos por 24 dias num barco de cinco metros, até aportarem em São Luís do Maranhão. Isso me contou o faroleiro, e lamentei não conhecer a costa maranhense, os ditos lençóis, e tanta coisa que ainda há por ver neste mundo.

Farol

            Vista do farol

        Mas pelo menos vou conhecendo o que consigo. Em Cabo Verde, visitei apenas (parcialmente) uma das ilhas do arquipélago. Para conhecer mais, precisaria de outras semanas: o acesso aos locais é lento, como o tempo tranquilo do povo. Não fui a Fogo, que era o meu grande interesse vulcânico – mas em compensação conheci a Cidade Velha, em Santiago. D. Rosalinda, a guardiã das chaves da igreja de Nossa Senhora do Rosário, transporta-nos a uma atmosfera medieval. O único ponto de ressalva foram os camelôs, insistentes em sua negociação. Eles estendem suas mercadorias na praça do Pelourinho e, quando eu quis comprar uma fruteira com peças miúdas, de madeira, subitamente me vi dentro de uma disputa entre dois senegalenses. Os vendedores me mostravam produtos semelhantes, mas cada um oferecia um preço menor do que o do outro, numa espécie de leilão ao contrário. Fui salva pelos amigos brasileiros.

            Ainda precisaria falar do mercado Sucupira, das mechas de cabelo à venda, para serem trançadas in loco. E dos alfaiates sorridentes, que preparam vestidos em meia hora. Precisaria abrir um espaço grande para o batuku, espetáculo de dança e canto que parece nos raptar para dentro de uma floresta, onde as mulheres se transformam em deusas fortes. Sim, é necessário voltar à África (não só fisicamente, mas com outros textos). Por enquanto, eu termino com a lembrança de Cesária Évora, enquanto ouço uma morna. Conduzida pelos nomes, lembro aquele poeta português, um dos meus preferidos, e de quem também se dizia para não amadurecer. Não é um despropósito fechar com seus versos, já que Cabo Verde tem – na sua genética de palavras e na própria história – um sabor de Portugal:

  “E evoco, então, as crônicas navais:

Mouros, baixeis, heróis, tudo ressuscitado!

Luta Camões no mar, salvando um livro, a nado!

Singram soberbas naus que eu não verei jamais!”

(Cesário Verde)

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2 pensamentos sobre “A Cesária o que é de Cesário

  1. Sou leitor de Tèrcia Montenegro. E quando ela viaja, seja por Frankfurt, pela a Polônia, pela a Croácia, por Minas, por Cabo Verde ou mesmo por alguma tatuagem enigmática, a gente só pede uma coisa: que ela viaje sempre, viaje muito, e traga seus textos maravilhosos, suas impressões que bate no coração e solidifica para virar diamante raro. Tércia encanta. Arrasa! E faz a gente vibrar e reler tudo que escreve. Reler em voz alta para ter mais sabor…

  2. Eu me emociono facilmente e a beleza do texto de Tércia Montenegro tocou profundamente o meu coração. Eis que de repente me vi novamente palmilhando as ruas e os lugares bonitos de Cabo Verde e desfrutando da vida de um povo feliz. Obrigado Tércia pelas boas recordações de Cabo Verde!

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