Sem nada a perder

     Leio agora a notícia espantosa de que mais de mil pessoas estão pré-escaladas para fazer uma viagem de colonização a Marte em 2025, sem chance de arrependimento. Ou seja: quem for não volta.

      É claro que meu primeiro pensamento foi o desejo de que estivessem na lista duas ou três criaturas detestáveis que infelizmente conheci – entretanto, como não tenho lá grande sorte com palpites, descartei logo esta esperança. Com certeza, todos os inscritos são desconhecidos para mim, indivíduos que jamais encontrei e, portanto, não me trarão nenhuma falta (ou alívio) por sua partida. Isso me leva ao ponto seguinte de reflexão: qual o critério usado pela companhia Mars One, autora do projeto de exílio extraterrestre? Os selecionados são suicidas em potencial, dispostos a morrer num ambiente de ficção científica? Ou são leitores fanáticos de Asimov e Bardbury, quixotescos lunáticos (ou melhor, marciânicos), sedentos por aventuras espaciais?

      As colonizações do passado costumavam ser feitas de maneira mais ou menos caótica, extraviando para terras distantes criminosos ou degenerados de mistura com escravos, posseiros sonhadores e ambiciosos em geral. Em qualquer caso, essa gente não tinha nada a perder – ou, pelo menos, não dava muito valor ao que estava deixando para trás: família, possibilidade de emprego, país natal. Deve acontecer o mesmo com os 200 mil que se inscreveram para fugir da Terra. Imagino que sejam todos jovens, para que daqui a dez anos ainda estejam em idade fértil, capazes de se multiplicar pelo Planeta Vermelho… se conseguirem produzir oxigênio, encontrar água e alimento. Penso no choque surreal destas pessoas que serão obrigadas a conviver umas com as outras, todas estrangeiras (e qual será a língua que as unirá? Provavelmente o inglês – mas, se sobreviverem, em algum momento produzirão um novo idioma). Estarão dispostas a um desafio de sobrevivência absurdo, apegando-se a resquícios culturais para não enlouquecerem e se confundirem com bichos numa selva – ou, ao contrário, farão justamente isso, cairão no selvagem? É intrigante supor que essa experiência possa levar o ser humano a uma regressão primata.

      Seja como for, meus pais viram o homem ir à lua (ou será que não?). Em pouco mais de uma década, poderemos assistir a outra expedição inacreditável. Enquanto isso, suspeito que milhares de pessoas cometerão desatinos – sem tanta extravagância sideral, mas com idêntico ímpeto de despojamento, que leva a dizer “Nada mais me interessa; vou fugir para sempre”. Esse, ao meu ver, é o maior enigma por trás da notícia – quais os motivos para um abandono radical?

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