Ler e ver

Há uns dois meses, anunciaram – falsamente – a estreia da A espuma dos dias nos cinemas de Fortaleza. Pensei que havia perdido as escassas sessões, quando na verdade elas sequer haviam começado. Procurei o filme em locadoras (também em vão) até que descobri que na verdade ele era inspirado num livro do Boris Vian. Como já havia lido poemas deste ótimo autor francês, não demorei a encomendar o tal romance. A espuma dos dias transcorre num clima surrealista, mas não no estilo flâneur de, por exemplo, Nadja, do André Breton. Embora os personagens sejam igualmente livres de censura, quanto aos absurdos do mundo que os rodeia, no livro de Vian tudo se torna divertido, sem que pareça automatismo. Vejam, por exemplo, esta passagem:

“Colin, de pé na esquina da praça, esperava Chloé. A praça era redonda e havia uma igreja, pombos, um jardim, bancos e, em frente, carros e ônibus no macadame. O sol também esperava Chloé, mas podia se divertir fazendo sombras, fazendo germinar sementes de feijão selvagem nos interstícios adequados, fazendo escancarar as janelas e envergonhando um poste de iluminação aceso em razão de inconsciência da parte de um lumifuncionário.

Colin enrolava a borda de suas luvas e preparava sua primeira frase. Esta se modificava mais e mais depressa à medida que a hora se aproximava. Ele não sabia o que fazer com Chloé. Talvez levá-la a um salão de chá, mas em geral a atmosfera ali é mais para deprimente, e as senhoras glutonas de quarenta anos comem sete doces de creme com o dedinho levantado – disso ele não gostava. (…) Não no deputódromo, ela não gostaria. Não nas corridas de bezerro, ela vai ficar com medo. Não no hospital Saint-Louis, é proibido. Não no museu do Louvre, está cheio de tarados atrás dos querubins assírios.” (pp.56-7)

Outras inúmeras partes engraçadíssimas alternam-se com momentos poéticos, a ponto de às vezes termos a sensação de ler uma espécie de fábula. Mas, como eu lia já pensando no filme que me aguardava depois, não podia evitar a todo instante o pensamento: “Como será que esta cena vai ser transposta?” Havia muitos desafios na troca de linguagem artística, e só por isso eu me sentia atraída para o cinema – além de saber que Audrey Tatou estava no papel de Chloé (o que vale por uma boa recomendação. Nunca vi filmes ruins que essa atriz tivesse feito). Hoje, finalmente, eu estava pronta para enfrentar um shopping, único lugar em que o filme era exibido. Aturei com bravura a atmosfera nociva do espaço – não só pelo mofo que começava a arder na garganta, assim que alguém entrava na sala de exibição: a loucura de consumo, passeios frenéticos e overdose alimentícia (que caracteriza, em linhas básicas, um shopping center) também me trouxe um grande mal-estar. Claro que parte disso pode ser atribuída ao desfecho da história de A espuma dos dias, que é tristíssimo. Se no livro ainda se aguenta o suicídio até de um minúsculo personagem, na tela isso seria cruel demais – motivo pelo qual o filme busca um desfecho de redenção, mas que afinal não tira o gosto da tragédia. Tristeza no enredo, entretanto, não significa um defeito; se o espectador não for melindrosamente sensível, consegue acompanhar bem as criatividades de cena, que o filme esbanja. A atmosfera opressiva de sua última parte corresponde à tônica que Boris Vian criou – e que deixa clara a redução do homem ao rato, na mensagem escancarada pelo existencialismo vicioso a que um dos personagens se entrega. Pensar, rir, deixar-se levar pelo fluxo da vida; afinal, não importa o rumo da correnteza, pois o que restará no fim é isso: a espuma dos dias.

→Bom para ler e ver, comprovando de que modo o pessimismo pode ser o nó de uma história graciosa e poética, sem prejudicá-la.

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