Passagens por Paris

Anotações sobre uma visita à exposição “Passagens por Paris”, do MASP:

 – “As meninas Cahen D’Anvers” (que eu já conhecia) voltaram a me comover, sobretudo a cor de rosa, com sua expressão de cansaço tão frágil! Os vestidos das meninas de Renoir cintilam em pinceladas de luz, parecem feitos de confetes – mas talvez o grande segredo deste quadro seja o fundo pesado, em vermelho-escuro, contrastando com a leveza das crianças.

– Vejo a bailarina esculpida de Degas – tão diferente de suas figuras pintadas. Ela é estranhamente mendiga, com seu tutu que parece feito de estopa e seu corpete de bronze (como o resto do corpo, mas pintado de marrom). As sapatilhas parecem flexíveis, elásticas, como o único toque de balé neste corpo que, de resto, seria o de um palhaço exausto. Entretanto, se contornamos a estátua, vemos às suas costas o laço de cetim sobre a trança dura e as mãos unidas em concha: são um efeito de delicadeza, mas que permanece quase oculto – disponível apenas aos que se dispõem a “rodear” essa escultura (e assim o espectador é quem dança em torno da bailarina estática).

– Eu adoro os pintores obsessivos (em tema e estilo), como Degas com as bailarinas, Morandi com as garrafas, Aldemir com os gatos, Chagall com os sonhos azuis… Por outro lado, há Picasso, com sua multiplicidade, sua “instabilidade”, se assim podemos dizer.

 – De van Gogh, encontro um banco de pedra do asilo de Saint-Rémy, pintado de um jeito que a tinta parece porejar. E “A arlesiana”: ainda sem amarelos, mas já tão van Gogh! “O filho do carpinteiro”: uma criança esverdeada, feia, trágica.

– Ainda de van Gogh, uma natureza-morta com prato, vaso e flores, de 1884/5 – tão anônima estilisticamente, que é quase inacreditável pensar no gênio (ou no fanático) que já existia por trás daquilo.

– Toulouse-Lautrec: seus traços rápidos que são quase esboços; o gesto convulso e ríspido no quadro “A dançarina Loïe Fuller vista dos bastidores – a roda” (a roda é aquela feita por seu vestido espalhado, na gloriosa dança). “Monsieur Fourcade” (1889) parece desenhado a giz de certa. Lautrec impõe o inacabado (e até mesmo o feio, desde que seja dinâmico) à arte moderna.

 

– Maravilhosa, a sala dos Modiglianis: as mulheres-girafas, bizantinas em sua verticalidade (e também nos olhos oblíquos). Sua “Lunia Czechowska” (1918) é praticamente um ícone. Entretanto, o seu retrato de Diego Rivera é estranhíssimo: compacta a figura, o corpo espargido em pinceladas à Pollock – nada das curvas serenas, da expressão vazia que encontramos num retrato de “Leopold Zborowski”, de 1919. E este foi pintado três anos depois, o que leva a pensar que foi mesmo o tema o responsável pela mudança de técnica. Para pintar o muralista mexicano, sua corpulência e força política, Modigliani não se atreveu a uma transfiguração longilínea.

Um pensamento sobre “Passagens por Paris

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