Os embrutecidos

     Num desses dias, precisei ser atendida por uma médica e, ao contrário, vi à frente um robô, um autômato que sequer me olhava, enquanto fazia perguntas e preenchia dados. A criatura só levantou a cabeça em minha direção no início (quando o meu silêncio de espanto fez com que eu atrasasse as respostas, que ela queria rápidas, e também robóticas) e no final (quando detectei um sorriso medonho de tão artificial, surgido no seu rosto à guisa de despedida – mas agora penso que deve ter sido uma careta sincera, de alívio por ver-se livre de um paciente). Estava claro que a agenda da médica era uma sequência de suplícios e eu, um número que ela pretendia riscar o mais velozmente possível.

     Uma embrutecida pela profissão – concluo (ou estaria assim por outro motivo?). Algum problema pessoal podia respingar nos seus gestos, na impaciência por resolver questões alheias, ao passo que os próprios dilemas ficavam em segundo plano, adiados para o fim do expediente? Essa era uma ideia, embora eu ache – por uma experiência particular que ainda insisto em aplicar aos outros – que o ato do ofício cria o milagre de abstrair. A não ser num exercício puramente mecânico (o que não pode ser o caso da medicina), o profissional usa sua concentração de tal maneira que não lhe sobra tempo para divagar por assuntos diversos, inclusive os mais íntimos. Agora, se a profissão já não satisfaz, não traz desafio nenhum, é natural que se reprisem as tarefas, dentro de um ciclo obrigatório – e a irritação cresce quanto mais aquilo vai parecendo óbvio, sem surpresas. A pessoa gostaria de abandonar tudo e se entregar somente aos pensamentos.

      A tal médica não devia encontrar uma doença instigante há muito tempo. Felizmente, eu fui outra paciente a decepcioná-la. Minha saúde teve apenas o efeito de aborrecê-la (a ela, que queria a moléstia rara, a chance de pesquisar algo incomum e, quem sabe, escrever um artigo para o Lattes). Saí do consultório consciente de que minha aparência foi esquecida de imediato, como quem esquece um papel de propaganda desinteressante que acabou de amassar e jogar, em forma de bola, no cesto de lixo. Eu, porém, não esquecerei a médica-robô. Ela ficará – num misto de horror e piedade – como exemplo do que não quero ser: alguém de sangue frio, pedra bruta que vive como se conhecesse as verdades e já não houvesse nada a valer um olhar curioso, um aprendizado.

Tércia Montenegro (05/02/2014)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s