Como traduzir uma cidade

Para traduzir uma cidade, eu prefiro começar pelos museus. Eles dizem muito sobre o caráter de um povo.

Paris, é óbvio, vive os arrebatamentos inesgotáveis do Louvre, mas não apenas dele. Depois do fervilhar de gente em torno da Gioconda, e para além dos turistas que se querem fotografar em poses engraçadinhas ao lado dos Escravos de Michelangelo, há muitos outros espaços interessantes – discretamente exultantes, eu diria.

Mas comecemos pelo Louvre, comme il faut. Nesta minha primeira visita, praticamente me restringi ao bloco Richelieu (escolha acertada; mas qual não seria?). Assim, comecei vendo estelas funerárias e cones de escrita suméria. O mundo fenício e púnico chegou a mim através de cabeças assombrosas, misteriosíssimas – e claro que me impressionei com a estela funerária árabe que trazia uma inscrição maldita: “Que Athtar O Oriental atinja aquele que a demolir.”

Apreciei pratos iranianos, vasos em forma de pássaros, jarros milenares, adagas, punhais com cabos em formato de dragão – da dinastia dos Sukkalmah – e a certa altura entrei numa euforia arqueológica. Eu queria morar ali, em meio àquelas peças: queria acordar vendo a estela babilônica usurpada por um rei elamita, no século XII a.C. E olhar durante horas a deusa com olhos e umbigo de rubi, feita em alabastro, no séc.III a.C.

Não acharia nada ruim circular ao longo de dias por aquelas salas, até topar novamente com o fabuloso capitel de uma coluna do palácio de Darius I. Eu me encantaria de novo com aquela bacia ritual ornada de peixes-cabras, em calcário, sabendo que na iconografia mesopotâmica eles significavam a personificação do “abismo das águas doces”, o domínio do deus Ea. Eu estudaria a cerâmica de Susa, as esculturas moabitas e, depois, os touros androcéfalos vindos do palácio assírio. E talvez parasse de novo, muitos minutos, diante daquela estátua-menir com um rosto mal traçado, quase um fantasma, olhos e nariz apenas sugeridos por trás de um lençol de pedra. Tudo isso antes de entrar nas salas com obras da Idade Média – assunto que fica para outro dia.

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