Viajar não acaba nunca

E houve aquela aula de polonês em que a professora pediu uma sentença com um verbo perfectivo que, conjugado no presente, tivesse valor de futuro. Eu sugeri o verbo “podróżować” (viajar), mas então a nauczycielka Magdalena saiu-se com essa frase, de uma verdade filosófica: “Viajar não tem perfectivo, viajar não termina nunca”.

Respaldada pela sabedoria eslava, eu retomo o interminável tema – e, dentre os outros infinitos, escolho Paris, mais uma vez (mas será possível falar em sequências dentro da eternidade?). Volto aos museus, estou neles de novo, agora enquanto escrevo – podróżuję, sim, não acaba nunca!

Eu me concentro para tornar mentalmente ao Musée d’Orsay, começando pelas obras de Delacroix e Ingres. De Auguste Préault, não esqueço a Óphelie dramática, afundando no bronze à semelhança da Moema que vi no museu de Belas Artes do Rio de Janeiro (uma obra de Rodolfo Bernardelli). E O Nascimento de Vênus, de Alexandre Cabanel, foi como uma antítese da Olympia, de Manet… Aliás, por falar nesta obra, o seu exemplo é o melhor lembrete da importância de se estar ali, ao vivo, diante da tela. Quando se tem de perto a Olympia, parece que salta diante de nós o gato preto no canto direito: é estrábico, e quase se diria assustado com o nosso olhar invasivo sobre ele. Em diversas reproduções desse quadro, em tantos livros, jamais havia reparado no poder da figura felina que suga a nossa atenção.

Minhas anotações da visita enumeram as obras de Puvis de Chavannes – Le balon e Le Pigeon, lindos e teatrais, em tom sépia –, de Louis Welden Hawkins (a sua Séverine, de 1895), de Gustave Moreau – pelo universo de sonho na sua Galatée – e de Lucien Lévy-Dhurmer, com o seu divertido Autorretrato em trompe d’oeil. Mas não preciso consultar nenhum bloco para voltar à Sala de Odilon Redon. Revejo a maioria das imagens, toscas, mas com aquele tom de fábula, que também faz parte de Chagall. O retrato de Marie Botkin, em pastel, é de uma delicadeza sublime, e mostra que Odilon apela para o rústico intencionalmente, em várias obras – não é que não saiba desenhar, absolutamente! Veja-se, por exemplo, o seu autorretrato espantosamente realista. Alguma violência expressionista pode mesmo lembrar Gauguin, em Moça com boné azul.

E por falar neste, na sala dos Nabis encontrei o seu Cristo Amarelo. Emoção de arrepiar, ao lado das impressionantes – e apropriadas (em rusticidade) esculturas de Georges Lacombe, como Isis e O nascimento. Além do mais, havia Paul Sérusier, havia Maurice Denis e suas mulheres melancólicas, Pierre Bonard e o queridíssimo douanier Rousseau, com sua figura selvagem de menina alada, cavalgando um cavalo mítico. Na tela, os corvos mutilam cadáveres, mas numa floresta de textura a tal ponto macia, que não se crê nesse tema sanguinário. Outras obras de Rosseau (as mais famosas) eu encontrei no Pompidou…

Mas ainda no Orsay, na sala de Toulouse-Lautrec eu vi um vitral belíssimo, Au Nouveau Cirque, Papa Chrysanthème, e a famosa tela Jeanne Avril dançando. Meu Deus, parece que tenho diante dos olhos a geografia das salas: do lado esquerdo, encontrei Courbet, com seus imensos quadros, Um enterro em Ornans e A caçada do cervo. Passei muitos minutos diante do seu patético Combate de cervos e do famoso O ateliê, em que figura a imagem de Baudelaire, tão jovem. Poucos metros adiante estava Millet, com O Angelus e As colhedoras, estava ali a tela de Daumier, Os ladrões e o asno, e ainda mais Cézanne, com o seu Achille Emperaire – moderníssimo!

Como se não bastassem essas referências magníficas, na ocasião o Orsay ainda apresentou a mostra van Gogh e Artaud. Não há como fruir o amarelo, a convulsão do impasto, o pensamento (e o delírio) de um gênio – tão bem aproximado a outro, Artaud – a não ser que se esteja ali. É um momento histórico, um privilégio de vida! E, acrescentando ainda mais aprendizado (parece que a emoções não atingem nunca o seu limite, o caos exaustivo), havia a mostra sobre Gustave Doré, que eu jamais imaginei como escultor – e no entanto, era inegável o seu talento, o esbanjamento de arte e destreza que ali se exibia. Conhecê-lo como ilustrador, apenas, é um desses erros de superficialidade com que a popularidade tantas vezes pune um artista. Mas como corrigir os rótulos, as interpretações rasteiras? É preciso abrir muitos os olhos, conhecer, estudar, viajar… Isso não pode acabar.

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