O belo e o banal

Eu me tornei fotógrafa em Israel. Apenas quando estive nesse país, as técnicas e os estudos anteriores se encaixaram perfeitamente com os temas que eu tinha à vista – e experimentei a angústia da captura (que é a mesma, quer a gente busque a palavra ou a imagem) na hora de criar.

Até agora, entretanto, não entendia porque, um ano depois de ter fotografado em Jerusalém, em Bet She’an e, sobretudo, em Zefat e Tel-Aviv, eu não consegui, em Veneza, fazer um registro que tivesse o meu estilo, por assim dizer. Todas as fotos saíam lindas, por causa da paisagem – mas elas podiam ter sido feitas por qualquer pessoa. Eu tentava refletir sobre essa beleza que, de tão extrema, parece que se esbanja e se banaliza – mas só recentemente, lendo Sémiotique de la photographie, alcancei um ponto mais ou menos firme sobre o assunto. Eis o trecho que fez disparar minha lembrança:

“Quelle est donc la part de l’objet (objet trouvé) qui se présente dans le lieu, qui ‘sollicite’ le photographe et, d’autre part, celle de la prise d’image? Une question de ce genre n’existe guère en peinture. Pensons à Canaletto et à ses vues de Venise: personne ne pourrait atribuer à la seule beauté de Venise la plénitude esthétique des paysages de Canaletto. Quelles sont donc les frontières entre la plénitude sensible que l’énonciation photographique offre au sujet représenté et celle que le sujet représenté offre à la photo?” (BASSO et DONDERO, 2011, p.101)

O que ocorreu em Veneza foi que minhas fotos soaram como uma única voz tímida perdida em meio a um coral possante: o aspecto extremamente turístico do lugar, somado ao fato de que todos ali estavam empenhados numa idêntica atitude fotográfica (obsessão que jamais tornei a ver, no mesmo nível, em qualquer outra cidade), tudo isso me fez sentir uma espécie de sufocamento, como se eu estivesse sendo soterrada por centenas de câmeras simultâneas – e a minha perdia o sentido, ao se misturar com a multidão. Não houve, portanto, qualquer “plenitude sensível” que eu pudesse oferecer às fotos que fazia, até porque isso se conquista com um ritmo lento (que, não por acaso, é o ritmo de um pintor: um pintor não dispara sobre uma imagem, ele a compõe).

Resta a dúvida: algum dia retornarei a Veneza para fotografar (e viver) de maneira tranquila?

Canaletto

 

 

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