Cartier em casa

Agora que eu tenho esse magnífico catálogo do Cartier-Bresson comigo, em casa, não lamento de nenhum modo ter renunciado a sua exposição de fotos no Pompidou, em março passado: eram 45 minutos de espera na fila, muito tempo para uma turista que, de resto, tinha todo o acervo permanente do museu ali, livre e acessível  de imediato. Na ocasião, refleti sobre o fato de que a fotografia não é uma arte com tanta densidade plástica quanto as pinturas, portanto vê-las ao vivo ou numa boa reprodução não faria grande diferença. Claro que, meses mais tarde, eu mudaria de ideia ao ter diante dos olhos as imagens da fotógrafa Francesca Woodman pela primeira vez – evidente que adquirir o catálogo de sua exposição no Bozar, em Bruxelas, foi importantíssimo: mas nada como ver aquelas revelações, em tamanho tão pequeno, comovente. Quanto ao Cartier, agora não posso comparar experiências sensitivas, mas isso não estraga nem um milésimo do prazer de penetrar no catálogo – que traz, além das imagens, estudos e reflexões.

Eu escolhi intencionalmente o dia de hoje para falar sobre isso, pois foi num dia 22 de agosto que esse artista nasceu (e a exposição do Pompidou marcava os dez anos de seu falecimento). Portanto, ainda na linha dos festejos em torno da fotografia, lembremos Cartier-Bresson – e aprendamos, com as informações deste catálogo organizado por Clément Chéroux, que Henri, assim como muitos outros artistas, não cabia em classificações redutoras. A tal teoria do “instante decisivo”, epifania de muita gente, é um detalhe diante do que se pode encontrar na trajetória desse autor que começou surrealista, levado à fotografia pelo “misticismo solar” de um amigo obcecado a tal ponto pelo astro-rei que a “escrita com a luz” não poderia escapar de seu raio. Depois da influência avassaladora de Eugène Atget, Cartier-Bresson, no melhor estilo voyageur farceur, despontou junto com seu próprio nome: envolveu-se com fotografia política, criou a agência Magnum, mais tarde abandonou a reportagem… reinventou-se sempre, sem se aprisionar num estilo único. E não é isso que os grandes fazem? Eles nos lembram que a coerência é coisa muito diferente da monotonia.

Martine Franck, Paris, 1967

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