Dr. Atl em Olinka

Foi difícil escolher a coisa mais apaixonante desta minha viagem ao México, para começar a escrever sobre ela – e de fato ainda não me decidi pela hierarquia nem me importo muito com isso, mas o Dr. Atl está aqui, como primeira postagem do tema, porque eu conheci algo sobre a sua obra apenas poucos dias antes de embarcar (sabendo que ele tinha sido um dos amores de Nahui Olin e inclusive o responsável por batizá-la assim, em náhualt, língua na qual o seu pseudônimo também foi cunhado, significando “água”; desse modo, não por acaso o Dr. Atl aparece como a representação do elemento líquido no famoso afresco de Orozco – mas esse é um assunto para mais tarde). Eu o conheci tão recentemente, portanto, mas já fui uma felizarda por visitar uma exposição com muitos de seus quadros, em Guadalajara. No Hospício Cabañas, a mostra Rotación Cósmica me ensinou muitíssimo.

Rotación

Logo no início, vi fotos do Dr. Atl no vale de Pihuamo, onde ele quis – em vão – instalar sua Ciudad Internacional de la Cultura (um projeto que me lembrou um sonho parecido da Violeta Parra, mas em outro lugar e com diferentes dimensões). O pintor queria construir uma cidade inteira, para artistas e cientistas, e formulava esse desejo desde 1903 – mas foi em 1912, em Paris, que começou de fato a esboçar seu projeto. A cidade seria batizada de Olinka, que em náhuatl quer dizer: “onde se crea em movimiento”. Dr. Atl cogitou como lugares o vale de Teotihuacán, as “estribaciones” de Popocatépétl e Iztaccíhuatl, Tepoztlán, entre outros. Olinka seria uma “fuga hacia el espacio infinito”, onde o homem alcançaria seu potencial absoluto” – mas o que me mais me impressionou foi uma fotografia deste velho homem à procura do local para sua terra prometida: a ausência da perna direita e as extremidades das muletas fincadas na terra, o contorno triangular de sua figura sombreada, terminando num chapéu… tudo fazia lembrar um vulcão! Será que o artista tinha enfim se metamorfoseado no que mais queria?

Desde os 19 anos, quando ainda se chamava Gerardo Murillo, ele realizava caminhadas solitárias de até quatro meses de duração, pela espessura das selvas de Nayarit e Jalisco. Buscava paisagens para pintar e situações espirituais que lhe trouxessem revelações cósmicas. Os vulcões o seduziram de modo fulminante, e em 1943 o Dr. Atl se instalou nos arredores do Paricutín por quase um ano. Pintou este vulcão de todos os modos, suas “fumaradas” e jorros de fogo, e depois publicou “Como nasce e cresce um vulcão”, com observações mais profundas do que as de qualquer geólogo.

Não posso deixar de imaginar que o seu amor pela explosão da natureza, por esse tipo de inferno terrestre, por assim dizer, foi um modo de continuar ligado a Carmen Mondragón, essa mulher lança-chamas, intensa e vibrante, uma espécie de Pagu mexicana que ele chamou de Nahui Olin. Na época do relacionamento, ele a fotografou e pintou – e, de acordo com as informações que obtive, sofreu as oscilações da pré-loucura de Nahui. O próprio Dr. Atl não era um ingênuo, óbvio, mas ainda assim conseguiu ser vítima das crises de sua companheira, até que, por uma questão de sobrevivência, resolveu largá-la (parece que ela já havia atirado duas vezes nele). A separação não significou uma existência tranquila: como vulcanólogo, o Dr. Atl constantemente estava se arriscando – e o motivo para ter perdido uma das pernas, gangrenada e amputada até a altura do quadril, foi uma de suas apaixonadas expedições.

parejas31_3Olinka, o seu paraíso artístico, nunca chegou a existir – mas o Dr. Atl, ao pintar obsessivamente os vulcões, talvez reconstruísse a paisagem que estava por trás daquelas bocas fumegantes: os grandes olhos de Nahui, abertos sobre o céu como se o rastro das estrelas tivesse lançado uma golfada sobre a terra.

 

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