O corpo e a escultura

Não enfrentei a fila de uma hora e meia em pleno sol de janeiro na Pinacoteca do Estado de São Paulo para ver as obras de Ron Mueck – mas assim mesmo, perdendo-me entre as salas à procura de um certo quadro de Almeida Júnior que eu precisava muito rever, acabei encontrando o Couple under an umbrella, rodeado por frenéticos telefotógrafos. Parece que percebo um traço de ironia que o artista passa a suas personagens, ao modo como elas permanecem tão reais e ao mesmo tempo tão pouco humanas, na forma de se resguardarem desse alvoroço insano que as circula. Mas não nos enganemos: elas não são pessoas tranquilas ou sábias, são esculturas.

Ron

E, se não pude ver os outros oito trabalhos expostos, ao menos me consolei com o catálogo, que trazia um excelente texto de Robert Storr, sobre a obra de Ron Mueck:

“Duas coisas estão certas: estamos muito distantes da ideia clássica da escultura, e igualmente distantes de seu equivalente modernista na abstração idealista. De fato, chegamos a um tipo de arte excentricamente ilusionista, que só pode florescer uma vez que esses dois paradigmas tenham perdido sua autoridade para manter aprisionados, sequencialmente, os artistas, os ditames do gosto e os amantes da arte em geral. Ingressamos em um terreno da substituição do trompe d’oeil, das cópias que induzem ao erro, dos gêmeos grotescos. Efetivamente, estamos em meio a lembretes extremamente desconcertantes de até que ponto é possível reproduzir a natureza e de até que ponto os resultados se distanciam inexoravelmente da realidade.” (pp.19-20)

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