Flávio de Carvalho

Há alguns anos – admito – eu tinha preconceito contra performances. Não entendia o seu propósito, ou achava que tudo consistia num simples exercício de chocar, sem méritos estéticos. O espanto gratuito, que estaria muito mais próximo de um experimento sociológico, era o único resumo que eu conseguia fazer de várias intervenções, performances e happenings. Agora, depois de algum estudo a respeito, mudo de opinião, passo a admirar trabalhos na área e até penso em me arriscar nesse estilo… Claro que o conhecimento não legitima toda e qualquer obra (como em tudo, há os criadores e os imitadores – e estes serão sempre superficiais), mas eu gosto de saber quando o meu repúdio é motivado por minha própria ignorância (o que acontecia anteriormente) e quando tenho argumentos a respaldá-lo.

O trabalho de Flávio de Carvalho, pioneiro e visionário, foi o pontapé de que eu precisava. Ele é um clássico da performance brasileira, mas infelizmente só ouvi falar em seu nome há uns três anos. Agora fui aos livros e registros, que me impressionaram ainda mais favoravelmente: aprendi que o artista teve uma boa formação, e essa é uma pista maravilhosa. Adoro descobrir que alguém foi transgressor porque conhecia as regras, aprofundou-se nelas antes. Aliás, para mim essa é a transgressão autêntica; não acredito em rebeldias ingênuas ou inconscientes.

Flávio, desenhista exímio e arquiteto, escolheu dedicar-se a uma pintura expressionista e convulsa, como essa que encontrei na Pinacoteca:

Nu teatral (1949)

Nu teatral (1949)

Sua série Trágica (1947) é uma lição de desenho, ao mesmo tempo indicando liberdade e domínio de gesto. Seu interesse pela moda, pelo corpo enquanto casa, traz uma voracidade pluriartística que até hoje causa desconforto: as pessoas em geral se incomodam se um artista circula por mais de um ofício – como se cada um devesse eleger o “seu lugar” e firmar-se nele, fossilizar-se pela insistência. Ao contrário, uma simbiose entre vida e arte exige movimento contínuo, reinvenção e espasmo. Flávio de Carvalho levou isso tão a sério que incursionou inclusive pelo cinema. Não importa a falta de resultados: sua vontade de realizar um filme, que seria intitulado A deusa branca, já se firma como ato. Afinal, ele viajou à Amazônia em 1958 com esse desejo: contar a história de Umbelina Valéria, branca aprisionada pelos índios que se teria tornado uma deusa. Em meio a inúmeras confusões, ele rompeu com o comandante da expedição, mas esteve mergulhado na aventura até o fim. A sua viagem poderia, em si, ser considerada uma produção artística? Eu acredito nisso. Num mundo em que a viagem é uma performance, eu me disponho a roteiros imprevisíveis.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s