Pinocchio, mio discolo

Encontrei um Poltergeist no meu fogão, ao voltar de viagem. Uma coisa bruxuleante e imensa subiu repentina, depois que pedi ao porteiro que religasse o gás do meu apartamento. Por pouco a chama não atingiu uma parte do armário da cozinha, justo aquela em que fica pendurado um Pinóquio sorridente. O brinquedo tem aquelas clássicas feições em madeira que eu imediatamente recordei, quando Mauro, o senhor romano sentado ao meu lado, disse: “Pinocchio è un discolo”, à guisa de exemplo. Nós começamos a conversar por causa do livro em italiano que eu lia, dentro do avião – e ele se prontificou a me esclarecer qualquer dúvida lexical, o que eu, óbvio, aproveitei. Mas o pobre Pinóquio, por mais discolo, danado, endiabrado, não merecia aquele destino, que aliás já lhe tinha sido uma ameaça no Grande Teatro dos Bonecos de Pau.
Há mais de cinco anos na minha cozinha, garanto que ele nunca teve medo de ser usado como lenha – mas agora eu vinha inspirada pela estada em Camerino, quando dividi apartamento com Lívia e Fernanda, amigas cheias de talento com quitutes. Estava doida para me entregar à culinária, não fosse aquele fenômeno de pirotecnia doméstica. Tive de me conformar com um carnaval regado a café no microondas, ouvindo conselhos os mais variados, das pessoas a quem relatava minha tristeza. O pior deles veio de um parente que me garantiu ser o problema muito simples, uma questão de acúmulo de gás na mangueira, por causa do tempo em que fogão não fora utilizado. Para resolver aquilo, sugeria que eu apenas deixasse o gás escapando à vontade, liberando a pressão. “Mas isso não caracteriza suicídio?”, eu lhe perguntei, e ele desconversou, embaraçado.
Conformada com a situação, resolvi que afinal receberia a visita da Fernandinha Meireles, com quem queria trocar várias risadas: precisávamos apenas de queijo, pão e vinho, nada que envolvesse fornos, fogos ou fogueiras num feriado em que nenhum técnico poderia me atender. Ela chegou, feliz e artística como sempre, e lá pelas tantas me pediu um isqueiro para acender o cigarro. Como assim, um isqueiro? Eu devia ter um, pelo menos para queimar incensos quando o fogão me faltasse – mas jamais fui prevenida a esse ponto. Por sorte achei uma caixinha de fósforos perdida na gaveta de embalagens, uma ex-pinhole que tinha voltado a exercer seu uso primário. Fernanda logo detectou o passado fotográfico da caixinha, reconhecendo o discreto orifício que, depois de um Verdicchio, eu nunca enxergaria espontaneamente. Celebramos a feliz descoberta, combinando de depois levar a câmera artesanal para registrar o Mara Hope. Por enquanto, ela ainda abriga os úteis fósforos, mas no futuro terá o seu segundo momento alternativo – coisa que o meu Pinóquio por um triz não teve.

Discolo

Outro boneco de vida alternativa, numa vitrine na cidade de Gubbio.

2 pensamentos sobre “Pinocchio, mio discolo

  1. Impossível não visualizar a cena, ainda mais com os antecedentes “camerianos”, rsrsr. Maravilhoso poder desfrutar de tão agradável companhia também por aqui… Acabaste de ganhar mais uma leitora virtual! Beijos

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