A literatura é uma arte visual

A LITERATURA É UMA ARTE VISUAL

 

Num dos capítulos iniciais d’O irmão alemão, Chico Buarque faz o narrador – bem temperado com traços de alter ego – contar como a biblioteca dominava os cômodos de sua casa, a tal ponto que na infância ele sofreu de pânico ao encontrar uma parede vazia: sem uma estante de livros a preenchê-la, a parede a qualquer instante poderia desabar.

Quando criança, eu também vivi emoções semelhantes. Filha de professores, em minha casa a biblioteca reinava, erguendo-se como uma falésia. Naquele “gabinete”, meu pai pusera ainda uma mesa com a máquina de escrever, e a rede (indispensável utensílio cearense) atravessava os extremos do aposento, convidando a mim e a minha irmã a um balanço sem fim, nas horas em que ali não se trabalhava. Desse local de observação flutuante me acostumei à paisagem dos livros; a rede me impulsionava até que meus pés tocassem a lombada de alguns exemplares – como alguém que mergulha os dedos num rio, experimentando a temperatura da água.

Mas os livros escapavam do território: eram encontrados na cozinha, no banheiro, dentro da despensa, na garagem… Eu tinha acesso a todos, lendo o que me aparecia pela frente. Com 12 anos, peguei Cem anos de solidão e levei para o quarto. Pouco depois, estava com o teatro de Pirandello. Aquela disponibilidade era uma constante promessa de alegria e espanto – por isso ainda hoje mantenho, em meu próprio apartamento, uma relativa desordem de livros, para que tenham a merecida liberdade.

A biblioteca, porém, continuava um cenário permanente. Sua presença era tão inquestionável que, nos tempos de criança, eu achava que todo mundo possuía um lugar parecido. Lembro o choque quando (eu devia ter uns 6 ou 7 anos) acompanhei minha mãe em visita a uma amiga que tinha tido um bebê. As duas ficaram confabulando em torno do recém-nascido, enquanto eu saía para explorar a casa alheia, espiando aposentos, abrindo portas – até que me dei por vencida e voltei para perto das duas, perguntando: “Mas cadê a biblioteca?”. Minha mãe respondeu, terrivelmente constrangida: “Filha, não é todo mundo que tem livro em casa…” Sua amiga nem se importou com a declaração, não parecia envergonhada, enquanto acalentava o bebê – e eu a olhei, estupefata (“Ah, não?”), como se naquele instante me dissessem que nem todos os humanos eram mamíferos, ou algo assim.

A biblioteca da minha infância, com suas múltiplas cores verticais, plantou-me para sempre o gosto por mosaicos, vitrais, colchas de retalho, caleidoscópios, tudo o que mistura tonalidades – e a partir dela eu aprendi como a literatura pode ser uma arte visual. Por mais que saiba de sua dimensão sonora e tenha conhecido contadores de histórias, cordelistas, poetas populares, ainda encaro esses recitais como espetáculo, evento público, ao passo que, na minha intimidade, a literatura habita o livro, e o livro impõe seu silêncio de objeto, de coisa que se manipula e se descobre com outro ritmo – o ritmo da visão, que não é mesmo do ouvido. É um pulsar que se regula individualmente, detém-se no desenho das letras, aprecia as manchas gráficas: em cada palavra vejo um laço. E nunca me protejo.

 

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no blog da Companhia das Letras, em http://www.blogdacompanhia.com.br/2015/04/a-literatura-e-uma-arte-visual/)

Um pensamento sobre “A literatura é uma arte visual

  1. Lindo texto! Também cresci com livros ao redor e, hoje, meus filhos também têm o privilégio de conviver com os mais variados livros que fazem parte da trajetória de leitura de nossa família. Assim como Tércia, também fico abismada quando descubro que em muitos lares não há espaço para os livros. Tento contribuir presenteando com livros sempre que possível. Viva a literatura!

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