Karen e Conrad

Passei muito tempo para terminar a biografia do Conrad – e não somente porque o final do semestre me atacou de inúmeras formas (a maioria delas, desagradáveis). O principal motivo foi o impulso de jogar longe o livro a cada vez que a autora, Jessie Conrad, referia-se ao biografado – seu marido – como “meu amo e senhor”. Em cada ocasião, ao apanhar o volume que tinha aterrissado num canto do tapete ou, numa parábola desajeitada, caíra batendo na quina da estante, eu dizia a mim mesma que era preciso perdoar tal linguagem por causa do século em que se passava, quando as mulheres mal sonhavam em ter direitos etc. Logo em seguida, porém, lembrava que afinal Conrad não era um autor medieval, muito pelo contrário – e sua esposa, de escrita tão lúcida em todos os outros momentos, estava longe de ser uma pobre imbecil que ele tivesse pego como escrava… embora fosse exatamente assim que ela agia! O problema não se concentrava nas palavras de Jessie; as palavras eram um reflexo, apenas. Sua submissão a um homem irascível, sujeito a ataques de irritabilidade e absurdamente egoísta chega, no final do livro, a alcançar um tipo de orgulho, quando Conrad morre. Afinal, a esposa tinha sido a “única pessoa a suportá-lo”, tinha “cumprido bem sua missão” – como se o casamento se resumisse a um tipo de emprego permanente: servir a um indivíduo, cozinhando para ele, cuidando de seus achaques, servindo de datilógrafa e matriz para a sua descendência, e ainda companheira de viagens e compreensiva ouvinte de tantos problemas. Em troca, Jessie se vangloriava de ter ajudado a criar um gênio – e o horror dessa constatação me deixa estupefata! Pois até hoje, se alguém quiser apostar, ainda é possível encontrar mulheres assim, vaidosamente subjugadas – e o pior é que elas não são necessariamente estúpidas, isentas de raciocínio. O que se passa, meu Deus, para que elas esqueçam a individualidade em nome de um sacrifício que denominam investimento no outro? Não me digam que é amor; ou melhor, talvez seja amor, sim – mas esse amor vendido socialmente, através dos modelos repetidos de sensualidade e obediência que rondam as mulheres por toda a vida, fazendo com que elas considerem o cúmulo do elogio se um homem as pede em casamento, mesmo que isso signifique que elas não terão mais tempo para as viagens ou os estudos que tanto quiseram fazer. Por que será que a simples ideia de que o outro está pensando nelas parece a essas mulheres algo mais importante do que o fato de que elas podem – e devem – pensar em si mesmas? Em termos narrativos, é como se todas estivessem conformadas ao papel secundário, felizes por terem encontrado uma sombra onde se esconder. Um esquecimento que me parece fatal é esse, de que em cada vida só existe um protagonista, e esse não pode ser senão aquele mesmo que vive, que respira por conta própria etc.

Mas, apesar dos pesares, a tal biografia serviu para me instruir em alguns pontos. A partir dela aprendi sobre a amizade de Conrad com Ford Madox Ford (que, segundo Jessie, era um grandessíssimo machista, então imaginem o nível do sujeito). Os dois chegaram a escrever livros juntos e, previsivelmente, separaram-se com várias rusgas, embora anos depois Ford tenha escrito o seu Joseph Conrad. A Personal Remembrance, elogiando (e expondo) várias técnicas literárias do colega. E, também, foi interessante usá-la como introdução para a leitura do Coração das trevas, que é meu livro de agora – e, não por acaso, está me lembrando muitíssimo a Karen Blixen! Aí está: chego à conclusão de que Karen foi um Conrad, tanto nas experiências de aventura quanto na destreza artística. Mas por que isso ainda parece estranho e raro – que as mulheres alcancem o ponto máximo? Pena desse mundo, que ainda precisa (e tanto!) evoluir.

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