Brueghel conforme Baudelaire

É sempre arrebatador encontrar escritores falando de artistas plásticos. Vejam mais uma do Baudelaire ensaísta – e para mim, este texto serve também de preparação para a temporada belga, que se aproxima:

“Os flamengos e os holandeses fizeram, desde o início, coisas belíssimas, de um caráter verdadeiramente especial e autóctone. Todo mundo conhece as antigas e singulares produções de Brueghel, o Engraçado, que não deve ser conhecido, assim como o fizeram vários escritores, com Brueghel de Inferno. Que haja nisso uma certa sistematização, um parti pris de excentricidade, um método no bizarro, não é de duvidar. Todavia, também é bem certo que esse estranho talento tem uma origem mais elevada do que uma espécie de aposta artística. Nos quadros fantásticos de Brueghel, o Engraçado, mostra-se toda a força da alucinação. Que artista poderia compor obras tao monstruosamente paradoxais, se não fosse arrebatado desde o princípio por alguma força desconhecida. (…) Há no ideal barroco que Brueghel parece ter perseguido muitas relações com o de Grandville, principalmente se quisermos examinar bem as tendências que o artista francês manifestou nos últimos dias de sua vida: visões de um cérebro doente, alucinações da febre, mudanças repentinas e totais do sonho, associações bizarras de ideias, combinações de formas fortuitas e heteróclitas.

As obras de Brueghel, o Engraçado, podem se dividir em duas classes: uma contém alegorias políticas quase indecifráveis hoje; é nessa série que encontramos casas cujas janelas são olhos, moinhos cujas asas são braços, e mil composições assustadoras onde a natureza é incessantemente transformada em logogrifo. Além de tudo, bem amiúde, é impossível distinguir se esse gênero de composição pertence à classe dos desenhos políticos e alegóricos, ou à segunda classe, que é evidentemente a mais curiosa. Esta, que nosso século, para o qual nada é difícil de explicar, graças a seu duplo caráter de incredulidade e ignorância, qualificaria simplesmente de fantasias e caprichos, contém, segundo me parece, uma espécie de mistério. (…) Como uma inteligência humana pôde conter tantas diabruras e maravilhas, engendrar e descrever tantos absurdos assustadores? (Baudelaire. “Alguns caricaturistas estrangeiros”)

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