Ao bebê Joaquim, futuro leitor

Este fato aconteceu em abril. Meu romance Turismo para cegos ganhava um pré-lançamento no festival da Mantiqueira, aonde eu comparecia pela primeira vez. Depois do debate na tenda dos escritores, sentei para alguns autógrafos – e foi quando percebi o casal se aproximar. Pareciam dois universitários, com a leveza serena que certos jovens têm. A moça empurrava o carrinho com o bebê, que aos poucos meses já começava a frequentar espaços artísticos. Fiz um comentário simpático a respeito, enquanto ela me estendia um exemplar para que eu assinasse. “No nome de quem?, perguntei. “Joaquim”, ela disse, com um gesto de cabeça apontando a criança. O rapaz – ou talvez tenha sido a própria moça (aqui a lembrança hesita) – completou que desde cedo queriam formar uma biblioteca para o filho: “E com edições autografadas, que mais tarde ele vai gostar de ler”.

Fiquei absolutamente encantada.

Até hoje penso nesse menino crescendo numa casa com estantes que vão ganhar sempre novos livros – porque também eu passei a vida entre bibliotecas e, embora a maioria dos títulos pertencesse aos meus pais, eles ficavam todos ali, acessíveis como na clandestina felicidade de Clarice. Eu sabia que cada um deles poderia ser meu, que um dia seria possível chegar aos volumes das prateleiras mais altas, como se a escalada etária se medisse assim: adulto era o ser que tinha acesso às obras complexas, que raspavam no teto da sala, dos quartos…

Quando falei sobre essas impressões a um amigo mal-humorado, ele respondeu que eu era uma romântica, que mais valia tratar de alimento e saúde para as crianças, higiene, segurança, todas essas coisas fundamentais. “Biblioteca é um luxo” – acrescentou, esbaforido, e não discuti, porque detesto argumentações infindáveis. Mas poderia dizer que a vida também é um luxo. E a alegria. E a imaginação, inclusive. Eu agora imagino um futuro distante, digamos em 2095, quando nenhum de nós estiver por aqui – imagino Joaquim, um vetusto senhor a pegar em seus livros antigos, edições fora de mercado. Em determinado instante, ele vê o exemplar azul, com bolinhas de silicone na capa que revisita um quadro de Matisse. Folheia o livro lentamente e encontra a dedicatória que lhe fiz, no começo do século. Dedicatória ao leitor enquanto bebê: ele não se lembra da ocasião, mas adivinha que cruzamos olhares sorridentes. Isso de algum modo persiste.

Tércia Montenegro (crônica publicada ontem no blog da Companhia das Letras – clique aqui)

 

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