Arte atrai arte

Um dos processos que mais me dá prazer é esse da “arte que puxa arte” – quando, através de uma obra, sou levada a outra, de um autor diferente, e daí a outra, outra… como se um fio invisível me impulsionasse à aventura criativa, que se irmana entre vários pontos, ao longo do tempo e das culturas. Não se sabe aonde o caminho levará; só se sabe que será interessante, divertido e belo (aquela experiência viciante – e irrepetível – de ler um grande autor pela primeira vez: sempre estou buscando a velha sensação, embora a releitura tenha também o seu lado sublime).

Tudo isso para dizer que recentemente “ganhei o dia” por uma circunstância fortuita (será?). A querida amiga Mirella me havia emprestado o filme Elena, da diretora Petra Costa: poético, sensível e simbólico, sim – mas junto com o filme recebi também um livro de ensaios a respeito. Este foi o grande achado. Num dos textos, Joca Reiners Terron me fisgou pela passagem:

“Poucos meses antes de morrer (…) o grande escritor uruguaio Mario Levrero (1940-2004) enviou estranho e-mail ao filho Juan Ignacio, recomendando-lhe a leitura de um artigo acerca da criação de lagartos em determinadas condições de temperatura, além de outro sobre a conformação de quasares ao redor de certo planeta. A sugestão era precisa e indicava as páginas das revistas científicas que se encontravam em sua coleção particular.

Questionado pelo filho por conta dessas indicações aparentemente desvairadas que fugiam de seu campo de interesse, Levrero desconversou, apenas dizendo que guardasse a informação pois seria útil em seu devido momento. Após sua morte, em meio às dores do luto e à procura de rememorá-lo, Juan Ignacio se lembrou da indicação paterna. Ao folhear as revistas, encontrou dois mil dólares, que serviram para pagar o funeral, além de recuperar a existência de Mario Levrero por meio de traços essenciais de seu caráter, como a graça e o humor negro.” (pp.90-1)

Um “googling” imediato me trouxe outras informações sobre esse autor – que até então eu desconhecia. E soube que Mario Levrero é da “família” dos levemente surrealistas, como Felisberto Hernández. Não precisava de outra recomendação: já estou com o seu Paris: é a primeira etapa nesta travessia junto a um autor que, assim como Horacio Quiroga, tem tudo para me fazer mais próxima de um Uruguai literário.

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