Voilà la Wallonie

Minha chegada ontem a Liège não poderia ter sido mais cultural: logo no dia da festa de Outremeuse, enfrentei a exaustão de um voo insone e uma persistente chuva para ver o desfile dos bonecos gigantes e dos trajes típicos. As atrações eram entusiasmantes, desde as proezas dos jovens em pernas de pau até as figuras imensas – do Comissário Maigret e de personagens históricos ou fantasiosos, lembrando pinturas flamengas. Muitos grupos folclóricos desfilaram, representando regiões belgas ou lendas específicas (caso das Sorcières d’Ellezelles), e no final houve uma chuva de confetes que criou, para todos, uma repentina infância sob a neve.

fête

Maigret

charle

Djoueux

sorcières

serpentina

Continuando com os aprendizados, hoje escolhi passar um dia no museu. Estava cansada de multidões, e queria agora o conforto de salas vazias, peças admiráveis com suas legendas, fôlegos suspensos diante de obras incríveis etc. Talvez o Musée de la vie wallone não seja muito tradicional neste aspecto (a não ser pelas salas vazias). Afinal, ali não tive grandes embevecimentos – mas não era essa a proposta, a bem dizer. O museu pretende ser uma coleção-testemunho sobre um povo e uma região; então, nada de grandes raridades, objetos que justificam a viagem (como acontece com o Louvre e a Gemäldegalerie, por exemplo). Ainda assim, a visita foi extremamente proveitosa; após o cortejo de ontem, com tantos bonecos gigantes, pude aprender que as marionnettes liégeoises são uma tradição importantíssima – e não apenas Tchantchès, como vários outros personagens (muitos, inclusive, retirados da Bibliothèque Bleu, como Amadis e Charlemagne) deram prestígio às oficinas de François Bouchat.

Mas a principal característica deste museu talvez seja uma sensação de bricolagem que ele deixa no visitante: pode-se ver, no mesmo lugar, uma vitrine com equipamentos de detetive do século XIX, tais como uma “câmera espiã” disfarçada num relógio de algibeira, e, um pouco mais além, ilustrações sobre a maneira como cães e cabras puxavam charretes com mantimentos, na mesma época. Um grisoumètre (instrumento usado para medir o “grisou”, um tipo de gás tóxico presente nas minas de carvão) é exposto numa sala e, na outra, uma guilhotina autêntica dá início a um questionamento sobre a pena capital (e o argumento mais enfático é a cabeça mumificada de Rahier, o último guilhotinado em Liège, no ano de 1824! A cabeça está exposta ali, ressecada como se feita de papel machê, mas ainda assim terrível). Na ocasião, aprendi que o ofício de carrasco era passado de pai para filho, mas que a partir de determinada data o carrasco já não matava ninguém; simplesmente tinha como dever de ofício afixar pela cidade os cartazes que anunciavam dia e hora da execução (e quem, nesse momento, acionava a guilhotina? Fiquei sem saber).

No museu, não era permitido fotografar, então pude apenas registrar esta informação da entrada: a aparência do lugar, com seus pátios, me lembrou o Hospício Cabañas, em Guadalajara. Não à toa – o edifício também conheceu seu passado de função religiosa/educativa. Cliquem na imagem para ler os dados, e à bientôt!

coq

2 pensamentos sobre “Voilà la Wallonie

  1. Olá!

    Gostei muito do perfil da sua página, especialmente de saber que você gosta de gatos e viagens. Já tenho um blog há vários anos e no dia 1 de setembro, vou começar com um canal no youtube porque estou viajando para estudar mestrado em Portugal. Toda essas aventuras e dicas serão parte do conteúdo tanto do blog, quanto do vlog.

    Gostaria de fazer parceria e apoiar?

    Obrigadão.

    https://espelhoinversoblog.wordpress.com/

  2. Você não estava mesmo brincando quando falou que seria recepcionada por Maigret na Bélgica, hein?! rs Abç, faça valer o lema toujours l’aventure!!

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