Stoichita e a sombra

São admiráveis as pesquisas de Victor I. Stoichita, como já comentei em postagem anterior neste blog – e o seu livro Brève histoire de l’ombre, por exemplo, é bem mais profundo do que o Ombres portées, de Gombrich. Mas todos somos humanos (além de frágeis), então o equívoco ou, neste caso, o desconhecimento, fazem parte de qualquer processo de estudo, que jamais estará completo. Aliás, encontrar pequenos deslizes nos grandes autores não justifica a complacência, óbvio – mas serve como um lembrete de que a perfeição é coisa utópica.

A derrapagem de Stoichita acontece à página 149, em comentário à vinheta característica do personagem Lucky Lucke, « o homem que atira mais rápido do que sua sombra » :

Diz Stoichita : « Cet emblème final est d’autant plus significatif que dans les bandes dessinées dont il est le héros, Lucky Lucke ne tue jamais personne. Dans ce monde idéal, seul le ridicule tue et les balles ne servent que de véhicule à la pure expression inoffensive de la supériorité du héros. »

Ora, na verdade, o personagem Lucky Lucke, ao menos no princípio de suas aparições, comete uma morte, sim, e contra o seu próprio sósia ! É o que se vê na história intitulada justamente Le sosie de Lucky Lucke, de 1947 (Morris. Les intégrales v.1. Dupuis, 1980). Confiram a sequência abaixo, quando inicialmente o xerife tem dificuldades de diferenciar o herói do bandido (por ironia, o sósia é um criminoso condenado, Mad Jim) e, para solucionar o problema, faz com que o cavalo de Lucky Lucke, o fiel Jolly Jumper, reconheça o seu dono :

Lucky1

Após ser desmascarado, o bandido escapa, e nosso herói sai em seu encalço, não sem antes prometer ao xerife que trará o fugitivo de volta… num caixão !

Luck2

O desenrolar da história nos mostra apenas o momento do duelo e, no quadrinho seguinte um personagem vitorioso, que por um instante não sabemos definir : será Lucky Lucke ou Mad Jim ?

Lucky3

Finalmente, a dúvida se dissipa quando vemos a chegada do coveiro (vale observar a estratégia eufêmica para se falar do assassinato), com o tal personagem em primeiro plano montando Jolly Jumper, que não se deixa cavalgar a não ser pelo seu dono…

Lucky4

O final feliz, com a celebração da justiça, daria margem a outras considerações – mas vamos aqui nos deter apenas neste ponto : Lucky Lucke mata alguém, nesta HQ de 1947. Na época, a tal vinheta do « homem que atira mais rápido do que sua sombra » ainda não existia, e o próprio personagem era desenhado de maneira diferente, com ações menos realistas etc. Entretanto, os aspectos do estilo vintage não nos interessam a não ser como pistas de um percurso que vai progredindo ao longo do tempo, na construção deste perfil do herói. E é neste momento que a « falha », digamos, de Stoichita, merece ser levantada : não por si só, mas pela série de reflexões que (lamentamos) este autor deixou de fazer, ao desconhecer tal referência. Afinal, é de se supor que exatamente este episódio de Lucky Lucke possa ter despertado, em Morris, a ideia para a principal caracterização de seu personagem. Matar o sósia, o duplo, em certa medida equivale a matar a própria sombra…

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