Balthus, Balthus, Balthus

Como não gostar imediatamente de um pintor que se denominava “o rei dos gatos”? E, de quebra, ainda tinha origem polonesa…

Eu já conhecia superficialmente a obra do conde Klossowski de Rola, mas foi a partir de dois livros, Le paradoxe Balthus, de Raphaël Aubert, e Les chats de Balthus, de Alain Vircondelet, que agora pude me aprofundar. O primeiro título empenha-se em levantar os aspectos mitômanos da personalidade deste artista, circulando principalmente pela esfera erótica de vários de seus quadros. Foi uma leitura válida principalmente pelas relações entre a obra de Balthus e a pintura anterior: às págs 85-86, por exemplo, o autor demonstra como o personagem do quadro “A rua” (1933), que atravessa a rua com uma tábua sobre o ombro, teria sido diretamente inspirado pelo homem que porta a cruz no afresco de Piero della Francesca em Arezzo (1452-1459). Confiram as imagens:

O melhor é que Balthus não concordava absolutamente com esta inspiração (apesar de venerar a obra de della Francesca): numa entrevista, consta que ele explodiu numa gargalhada e observou que não existem trinta e seis maneiras naturais de carregar uma tábua, ou seja, basta simplesmente olhar em torno para se dar conta da postura adequada. Embora Raphaël Aubert defenda que esta atitude foi mais uma estratégia do artista para se furtar às revelações e criar uma atmosfera de mistério, a gente que produz arte sabe o quanto os críticos e intérpretes de uma obra muitas vezes viajam – com a melhor das intenções, talvez, mas sem lembrar que jamais alguém de fora do processo criativo saberá completamente o que esteve envolvido ali. Toda e qualquer leitura, por mais fundamentada, é válida, sim, mas não tem peso de verdade. Dito isto, esclareço que a verdade muitas vezes não é a via mais interessante das coisas, aliás (não à toa escolhi a ficção!).

Mas voltemos ao livro citado. À pág.87, um ponto curioso, que cito em tradução minha: “Uma outra particularidade do trabalho de Balthus e que choca aqueles que descobrem pela primeira vez suas telas, vem igualmente dos seus pintores preferidos. O fato é que sobre o rosto dos seus modelos, o sorriso está como que fixado, voltado para o interior, e ali paira uma invencível melancolia. Um traço que se encontra em muitos pintores da Renascença, justamente: Gaddi, Botticelli e, claro e sempre, Piero della Francesca, tal como se pode ver no afresco da Visita da rainha de Sabá ao rei Salomão na igreja de Arezzo ou n’A madona de Senigallia (1470) do museu de Urbino.”

Ora, Balthus – novamente sem desprezar todo o crédito aos pintores antigos, que ele tanto amava – poderia responder a isso também com uma risada: afinal, há muitas motivações para inserir melancolia num rosto, ou para colocá-lo à maneira de efígie (Piero della Francesca não foi criador ou detentor autoral dos retratos em perfil). Mas o que me interessa nesta análise é a ponderação a respeito desta tendência nos rostos renascentistas – o que poderia se aplicar inclusive ao sorriso igualmente “voltado para o interior” que se vê nos personagens de da Vinci (e aqui penso não somente na Mona Lisa, mas n’A dama com o arminho, n’A Virgem e o menino com Santa Ana, n’A virgem das Rochas… Penso sobretudo neste esplêndido São João Batista, que poderia ter alcançado tanto sucesso em termos de risinho enigmático quanto a célebre Gioconda, tão célebre que  me dá um certo tédio e me faz preferir os outros quadros deste gênio.

Finalmente, para concluir a apreciação do livro de Aubert, é bastante proveitoso pensar, às págs.100-101, no efeito de “Unheimlichkeit” (inquietante estranheza), emprestado do Freud e que pode ser aplicado tanto a um quadro como “A rua” como à obra dos pintores metafísicos em geral (especialmente De Chirico). O esclarecimento vem de Jean Clair, que traduzo: “Existe inquietante estranheza apenas na medida em que o real é expressamente colocado como tal e onde a sua figuração representa somente um desvio, o menor possível em relação ao normal”. O projeto surrealista não poderia, portanto, ser enquadrado assim, já que estes artistas buscavam o maior afastamento possível do real – mas aí eu penso: e Magritte? Não há inquietante estranheza nele? Assunto para outro dia…

 No livro de Alain Vircondelet, a grande qualidade são as imagens, inclusive com exemplos da pintura de Setsuko, esposa de Balthus (e retornarei a esse ponto em breve). O texto, porém, é irritante, na sua tentativa de criar solenidade. Como sei que toda mistificação é um ato de ignorância, não admito que falem de gatos como seres misteriosos, criaturas deslizantes e furtivas, que se põem a meditar sobre segredos profundos da “vida subterrânea” (sic!). Isso é realmente nunca ter vivido com um gato; nunca ter aprendido a sua linguagem, a maneira como seu corpo comunica, tanto quanto os olhos ou a voz. Isso é não saber que os felinos – assim como cada animal, aliás – têm uma sabedoria infinita a nos inspirar, mas ela nem de longe diz respeito a enigmas. É algo extremamente simples, mas o autor de Les chats de Balthus achou que fazer um livro vaporizado por feitiços soava mais inteligente. Neste caso, é bem o contrário, hélas.

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