Mons, Verlaine e os mitos

Aproveitando um final de semana que tinha tudo para ser monótono, peguei o trem em direção a Mons. Meu grande objetivo era o BAM, museu de belas artes, com a sua exposição sobre Verlaine – afinal, o poeta ficou preso na cidade de 1873 a 1875, após ter atirado em Rimbaud. Consta que a Bélgica sempre foi para ele um refúgio, e na prisão ele encontrou uma paz propícia à escrita e também certo consolo espiritual – mas não por muito tempo, se lembramos que em 1885 Verlaine foi novamente metido em cárcere, dessa vez em Vouziers, por ter tentado estrangular a própria mãe !

Esses dados biográficos – admito – ofuscaram a minha admiração pela figura, e por mais que eu tenha gostado de ver fotos e correspondências antigas, achei um pouco exagerada a vitrine em que puseram, reinando, o revólver com que Rimbaud foi alvejado.

Não há nada que justifique a violência, e todo esse discurso de celebração do « amor insano » ou da « loucura criativa », associando artistas a uma vida desregrada, sempre esteve longe de me convencer. O caso mais célebre é o de van Gogh em delírio nos campos de girassóis : a propaganda de muitas iniciativas culturais é de uma enorme irresponsabilidade, ao vender a imagem do gênio louco. Porque a mensagem parece ser a de uma relação causa-consequência, servindo de estímulo ou justificativa para pessoas que hoje, por causa desses modelos, chegam ao ponto de se orgulhar de uma vida à beira do crime e da doença !

Claro que, para quem quer se dedicar ao lado torto da existência, as motivações existem sempre. Um bloco de pedra pode cair sobre esse assunto, que afinal pouco me interessa. Mas eu me irrito com deformação tendenciosa da imagem dos artistas e o teor de « fofoca » com que ela é vendida para o público em geral. Distanciados da « gente comum », os gênios loucos permanecem em território inatingível, praticamente endeusados na sua atmosfera de singularidade. Por que Verlaine deveria ser um mito, afinal ? E por que Rimbaud ? Foram grandes escritores, talentosos, inteligentes – apesar de (e não devido a) terem sido pessoas pouco recomendáveis. E por que então aquele revólver deveria fazer parte da exposição ? Achei bem triste essa escolha do BAM…

A visita a Mons, entretanto, mostrou que a cidade soube incorporar de um modo bem mais produtivo a presença de Verlaine em seu passado. Em muitos muros e calçadas, os versos do poeta se difundiam, dando um novo ritmo aos passeios.

Muro

 

Foi seguindo um poema que eu cheguei, por exemplo, À Collégiale Sainte Waudru e, depois, ao Beffroi barroco, lindíssimo e imponente !

Beffroi

Estrofes além, eu me deixava seguir pelas ruas de Mons. Entrei na igreja de Sainte Élisabeth, onde um organista subitamente começou a tocar, embora eu fosse o único público ali (e claro que não pude – nem quis – sair enquanto a música acontecia). Apenas a exaustão me levou a pegar o trem das quatro horas, mas antes os muros de Mons me reservavam uma outra mensagem. Não era Verlaine, mas a frase foi valiosa para me fazer pensar em todos esses estratagemas de personalidades e mitos…

Grafite

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s