A lenda nos vidros

Aqui em Liège, faz alguns meses já, fotografei uma sequência de seis janelas que traziam inscrições. Elas pertenciam a um estabelecimento comercial que depois eu soube tratar-se de uma gráfica – mas nada na aparência do prédio, fechado, sugeria uma atividade específica. Apenas as inscrições no vidro das janelas criavam a sua singularidade : como trechos de uma lenda, elas instigavam o mistério e a poeticidade. Traduzo aqui os seus textos, para lembrar como é importante traçar palavras que nos mantenham na superfície (e também nos salvem dela).

Primeira janela – Conta-se que o vapor que se deposita no vidro de certas casas faz reaparecer inscrições que teriam sido traçadas anos antes.

2a – Alguns chegam mesmo a pretender que, na origem, estas inscrições teriam sido formadas na areia que serviu para a fabricação destes vidros.

3a – Elas teriam sido escritas por todos os que, partindo rumo ao deserto em busca de alguma verdade, perderam-se nas areias movediças.

4a – Para não afundar muito depressa, eles teriam tentado acalmar sua agitação traçando inscrições produzidas por um agradável movimento manual.

5a – Eles não buscavam saber o que escreviam ; queriam apenas encontrar as palavras que os mantivessem por mais tempo na superfície.

6a – Os que retornaram passam o tempo a assoprar sobre os vidros, na esperança de encontrar suas incrições e compreender o sentido.

Janela

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